Nas redes sociais, não faltam receitas que apresentam o vinagre como um produto de limpeza coringa. O ingrediente pode, de fato, ser útil em algumas tarefas domésticas, mas está longe de servir para tudo.
No Brasil, o mais comum é o vinagre de álcool, feito a partir da cana-de-açúcar. Na prática, o vinagre de mesa é composto por cerca de 94% a 96% de água e 4% a 6% de ácido acético. Hoje, também existem no mercado produtos específicos para a limpeza.
"Os chamados vinagres de limpeza, de 8% a 10%, são a mesma molécula em concentração maior, tornando-os mais eficientes para algumas tarefas, porém mais corrosivos e irritantes, e não devem ser usados em alimentos", diz Danilo Manzani, coordenador do Laboratório de Materiais Inorgânicos e Vítreos do IQSC-USP (Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo).
A seguir, tire suas dúvidas sobre o uso do vinagre em casa.
Vinagre funciona para desinfetar superfícies?
Não. Antes de tudo, é preciso entender que limpar e desinfetar são coisas diferentes: limpar é remover sujeira; desinfetar é eliminar micro-organismos.
"O vinagre limpa razoavelmente, mas não desinfeta nas condições em que as pessoas o usam, ou seja, existe atividade antimicrobiana, mas ela depende de concentração alta, tempo de contato longo e superfície previamente limpa. E ninguém atinge essas condições usando vinagre no pano para limpar", afirma o professor.
Segundo o especialista, para a limpeza do dia a dia, o mais eficaz é usar água e detergente, esfregando para remover a sujeira.
Já a desinfecção é indicada para locais específicos, como banheiro, bancada que teve contato com carne crua ou área em que alguém está doente. Nesses casos, deve-se utilizar desinfetantes, água sanitária diluída conforme as instruções do rótulo ou álcool 70% (disponível em gel para o público geral).
Vinagre serve para higienizar alimentos?
O vinagre pode ser usado como uma etapa extra da higienização, mas não substitui a solução com cloro, que é o que realmente mata bactérias e outros micro-organismos.
O fundamental é lavar os alimentos em água corrente e, depois, deixar de molho em solução clorada (uma colher de sopa de água sanitária para um litro de água) por cerca de 10 minutos ou o tempo que o fabricante orientar. O produto deve ter a indicação no rótulo para uso em alimentos.
A submersão em vinagre pode ser utilizada antes do cloro, para desprender terra, areia, larvas e insetos das folhas. "Mas não garante a redução microbiológica. Usar só vinagre dá a sensação de segurança sem ter a segurança", afirma Manzani, que também alerta que o produto nunca deve ser misturado à água com cloro, por risco de liberação de gases perigosos.
Vinagre tira mofo?
O vinagre ajuda a reduzir o cheiro de mofo e pode remover alguns fungos de superfícies como paredes e azulejos, afirma Viviane Alves, professora do departamento de microbiologia do ICB-UFMG (Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais).
Mas, segundo ela, o produto não é a melhor opção para eliminar o mofo, sobretudo quando o problema é mais intenso. Nesses casos, a recomendação é usar água sanitária na diluição indicada no rótulo.
Em casos mais leves, o vinagre pode dificultar o estabelecimento de fungos nessas superfícies, mas seu efeito é limitado.
Vinagre pode estragar pisos e outros materiais?
Sim. O ácido ataca alguns materiais, gerando danos que costumam ser cumulativos, ou seja, demoram meses para acontecer e, com isso, as pessoas podem não associar o problema ao uso do vinagre.
Evite aplicar o produto em mármore, calcário e granitos com resina, além de rejuntes, pisos de madeira, cimento, laminados, superfícies com película protetora, alumínio e borrachas de vedação.
No que o vinagre realmente pode ser útil?
O produto ajuda a dissolver calcário. Então, pode ser aplicado, por exemplo, para remover manchas esbranquiçadas de vidros e chaleiras ou desentupir os furos do chuveiro, afirma Danilo Manzani.
Mas, como já mostrei em uma outra edição, fabricantes de chuveiro alertam que o uso do vinagre pode causar danos aos materiais do espalhador. O professor diz que a ressalva faz sentido e, se o produto for utilizado, deve-se evitar o contato prolongado com acabamento cromado e peças plásticas ou de borracha.
Ele acrescenta que o vinagre pode ser útil na lavagem de roupa. Adicionado ao enxágue, ajuda a neutralizar resíduos alcalinos de sabão, contribuindo para deixar o tecido mais macio e reduzir o cheiro de roupa guardada.
"O vinagre é um bom desincrustante de calcário, um razoável neutralizador de odores e um auxiliar na lavagem de roupa. É um desengordurante fraco e um desinfetante ruim. O problema não é usar vinagre, mas acreditar que ele substitui tudo."
Misturar vinagre com bicarbonato de sódio funciona para potencializar a limpeza?
Não. Juntos, os produtos se anulam. "O motivo de tanta gente acreditar que funciona só pode ser psicológico pelo fato de a mistura borbulhar, fazer barulho e parecer que está agindo", diz o químico.
Ocorre uma reação ácido-base, que produz acetato de sódio, água e gás carbônico. "A efervescência que as pessoas veem é apenas o CO2 escapando. No fim, sobra uma água levemente salgada, sem o poder do ácido e sem o poder do alcalino."
Para ter o efeito adequado, o uso deve ser separado. O vinagre ajuda a dissolver calcário e o bicarbonato atua como abrasivo e desengordurante leve.
Pode misturar vinagre com produtos de limpeza?
Não. Além de perder eficácia, algumas misturas podem provocar reações químicas e liberar substâncias nocivas.
A combinação com água sanitária ou qualquer produto clorado é uma das mais perigosas, com a liberação de gás cloro, irritante para olhos e vias respiratórias, com risco de edema pulmonar em ambiente fechado.
O vinagre é inofensivo?
Não. O vinagre concentrado, de 8% a 10%, é irritante para pele, olhos e vias respiratórias. Use luvas, ventile o ambiente e evite borrifar em névoa.
Não aqueça vinagre em micro-ondas para "potencializar" seu efeito: isso só aumenta o vapor irritante e a volatilização do ácido. Não guarde vinagre de limpeza em garrafa sem rótulo, por risco de ingestão acidental por crianças.
"Natural não é sinônimo de inofensivo. Ácido acético concentrado estraga piso, corrói metal e irrita as vias respiratórias como qualquer outro produto químico", diz Manzani.



