O último morador da favela Moinho, no centro de São Paulo, deixou a comunidade nesta terça-feira (15). O porteiro Manuel Severino Silva dos Santos, 53, morava no local havia pelo menos 20 anos.
A residência de Santos é uma das duas últimas que restam inteiras no terreno repleto de entulho.
O fim da favela do Moinho ocorre em meio a um amplo plano de requalificação urbana da região central paulistana.
Cerca de 850 famílias foram incluídas em um plano de reassentamento acordado entre as gestões de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e do presidente Lula (PT). O programa ofereceu moradias 100% subsidiadas aos que deixassem a área. A União era a proprietária do terreno —agora cedido ao estado para a criação de um parque público—, enquanto o governo paulista é o responsável pelas ferrovias de trens metropolitanos que cercam o lugar.
Santos havia ficado de fora. A carta de crédito não havia sido aprovada porque a análise inicial da sua renda somou ao salário de R$ 2.480 o adicional noturno, horas extras e o auxílio para alimentação. Isso o desenquadrou do patamar máximo de R$ 4.700 estabelecido pelo governo federal.
No entanto, ele afirmou que, depois de reportagem da Folha mostrando sua situação, as contas foram refeitas e o financiamento saiu, sem precisar pagar qualquer taxa ou imposto. Agora ele vai morar em um apartamento em um condomínio próximo do Moinho. Só espera a entrega da escritura.
Nesta terça, ele recolhia suas coisas para serem levadas pela irmã até o novo apartamento. E só deixou o local após sua casa ser demolida.
Manoel lamentou perder a convivência de amigos que tinha no Moinho. Além disso, reconheceu que estava ansioso porque nunca morou em um apartamento antes, apenas em favelas, e temia que sua gata não se acostumasse com a nova moradia.
"Eu não queria sair, eu gostava de morar aqui, tinha muitas amizades, muitos amigos, mas a gente vai ter que sair, fazer o quê? Quem tem dinheiro fala mais alto, quem não tem obedece e vai embora", diz.
Em uma discussão no Judiciário, a gestão Tarcísio obteve o direito de derrubar as construções vazias sob a justificativa de evitar a reocupação. Os vizinhos foram saindo aos poucos até que a rua onde Santos morava, a principal do Moinho, se tornasse um caminho deserto.
Nascido em Bom Jardim (PE), divorciado e pai de um filho já adulto, Santos chegou ao Moinho quando "era tudo barraco de madeira", diz. "Construí tijolo por tijolo. Todo mundo fez isso. Aí começaram a demolir, casa por casa, todo mundo saindo fora. Agora, você acorda, não tem ninguém. Só terreno vazio."
A um quilômetro do local, a gestão Tarcísio construirá a sua nova sede, ao custo de aproximadamente R$ 31 bilhões —cerca de R$ 6 bilhões para erguer as futuras torres de escritórios e R$ 25 bilhões para a gestão do espaço por 30 anos.
O governo avalia que a concentração dos órgãos estaduais em um só local resultará em economia com aluguéis e manutenções dos prédios atualmente espalhados pela cidade.
Para seguir com a proposta, a equipe do governador afirmou que era preciso retirar a comunidade que, segundo investigação do Ministério Público, abrigava uma célula da facção criminosa PCC. A remoção iniciada há pouco mais de um ano coincide com o desmonte da cracolândia, uma concentração de milhares de usuários de crack que, por três décadas, ocupou diversos pontos na região.
Operações das forças de segurança do governo paulista na comunidade, porém, resultaram em confrontos com moradores. Muitos rejeitavam a ideia de deixar a favela para assumirem dívidas do financiamento imobiliário subsidiado pela CDHU, a companhia habitacional estadual.
A pacificação ocorreu em meados de 2025, quando as gestões Lula e Tarcísio fecharam um acordo para reassentar os moradores em imóveis totalmente subsidiados. O valor total oferecido foi de R$ 250 mil, sendo R$ 180 mil bancados pela União e R$ 70 mil pelo estado. Quem optou por sair para apartamentos que ainda não estavam prontos recebeu auxílio-moradia de R$ 1.200 mensais durante a espera.


