Há 20 anos, Heitor Werneck fechava sua grife de roupas Escola de Divinos e descobria que havia em São Paulo um público disposto a transformar couro, vinil, corsets e amarrações em programa de sábado à noite.
A primeira edição do Projeto Luxúria aconteceu na Consolação, reuniu 120 pessoas e, segundo o estilista, revelou uma cena que ainda não tinha onde se encontrar.
"Foi a primeira festa de fetiche desse país", afirma Werneck. A inspiração vinha da mesma cultura que alimentava suas roupas: punk, rock, burlesco, o cantor Marilyn Manson e a banda Kiss. "Eu queria fazer uma festa que virasse um desfile de moda também."
Vinte anos depois, o Luxúria reúne normalmente de 200 a 400 pessoas. Houve um período em que esse número chegou a 600 ou 800, quando Werneck levou o evento para casas de swing e formava filas durante toda a madrugada. Ele não gostou do resultado. "Eu perdi o controle", diz. Hoje prefere limitar o público a cerca de 400 pessoas.
Desde o início, Werneck rejeita a definição do Luxúria simplesmente como uma festa de BDSM. "A festa era uma festa libertina com ênfase no fetiche", afirma. "Existia BDSM dentro da festa, mas era apenas uma das situações fetichistas."
O dress code continua fazendo parte da proposta. Couro, látex, vinil, corsets e acessórios aparecem com frequência, mas quem não possui esse tipo de roupa pode entrar usando preto. Cada edição ganha ainda um tema que serve como referência para os figurinos.
"O Luxúria não é uma festa de fantasia, é uma festa de fetiche, é uma festa de encantamento", diz.
As práticas também mudaram nesses 20 anos. Durante a maior parte da história do evento, Werneck afirma ter restringido relações sexuais a ambientes reservados. Mais recentemente, deixou de impor essa separação.
Ele insiste, porém, que sexo não é a finalidade do Luxúria. "Existe um preconceito muito grande das pessoas acharem que vão para o Luxúria e são obrigadas a transar. Ali você vai transar e fazer troca de casal se você quiser. O Luxúria é um lugar para se exibir, é um lugar para fetiche, é um lugar diferente para você exercer a tua sedução."
Entre as práticas que ganharam espaço nesse período, Werneck destaca o pet play, em que participantes assumem personagens de animais, e o shibari, técnica de amarração com cordas. Ele diz também que cresceu no país o número de artesãos que fabricam máscaras, chicotes, algemas e outros acessórios para a cena fetichista.
Segundo ele, a cena nacional de pet play é maior que a internacional. Também diz que o Brasil reúne mais artesãos de acessórios de BDSM do que toda a Europa.
Se códigos visuais do fetiche se espalharam pela moda e pela cultura pop desde 2006, Werneck não acha que isso tenha tornado o país mais tolerante. Para ele, ocorreu inclusive um retrocesso. "A libertinagem é o maior ato político que existe", afirma
Para ele, poder demonstrar publicamente orientação sexual e desejos sem sofrer julgamento é uma ação política. A cena fetichista brasileira, afirma, deveria formar associações e buscar representantes capazes de defender seus interesses também diante do poder público.
Werneck argumenta que o setor movimenta dinheiro com festas, clubes, artistas, performances, roupas, acessórios e turismo, mas não possui uma representação correspondente à sua atividade econômica.
"A gente só vai ser privilegiado a partir da hora que a gente tenha um representante dentro da política, uma associação comercial, a prefeitura vendo que a gente pode gerar turismo, impostos, porque tem um comércio, tem geração de renda."
A edição de 20 anos será realizada num prédio da rua Aurora que Werneck escolheu também por sua ligação com a antiga zona de cinemas eróticos do centro de São Paulo. O espaço tem três andares e formato de arena.
Depois de duas décadas, ele pretende diminuir a frequência do Luxúria. Em vez das edições mensais que chegou a promover, planeja fazer três festas por ano: o Baile de Vampiros, em janeiro, um baile de máscaras em junho e a comemoração do aniversário do projeto, em outubro.
Diz que outras festas passaram a apresentar performances semelhantes às que desenvolveu e que prefere ter mais tempo para criar atrações diferentes.
O problema que o acompanha desde 2006, contudo, não mudou tanto quanto as festas.
"Não é um lugar para fazer sexo", diz, voltando mais uma vez à imagem que tenta combater desde a estreia. "Esse preconceito ainda gera, e muito. Há 20 anos aguento isso."


