Confesso que ando um tanto desesperançosa com o mundo. Infelizmente, sou dessas pessoas que se informa, lê notícias (que não chegam através do grupo da família no WhatsApp) e, sendo assim, fica difícil não querer, dia sim, dia também, largar tudo e fugir para as montanhas. Como me disse uma amiga outro dia, em 2026 quem não está tomando remédio para ansiedade ou é burro ou está desinformado.
Sendo mulher e mãe de uma menina, a coisa fica um tanto mais pesada. O Brasil terminou 2025 com o maior número de feminicídios desde que o crime passou a ser contabilizado: foram 1.571 mulheres assassinadas, mais de quatro por dia. Em março, uma adolescente de 17 anos foi estuprada por colegas da escola em Copacabana. Há pouco menos de um mês, Giulia foi espancada pelo marido na presença do segurança da rua que, em vez de defendê-la, ajudou o agressor a levá-la para dentro de casa, onde a violência continuou.
Em qualquer lugar minimamente civilizado, as instituições estariam trabalhando incessantemente para prevenir novos casos, punir severamente agressores e oferecer mais suporte para as vítimas. Mas não. Em junho deste ano, numa sessão remota que durou 1 minuto e 40 segundos, o Senado aprovou uma medida que dificulta o acesso ao aborto legal para meninas menores de 14 anos vítimas de violência sexual.
Simone de Beauvoir disse: "Nunca se esqueça de que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá de manter-se vigilante durante toda a sua vida".
Simone estava certa. Nos EUA, cresce o movimento pelo voto familiar que, na prática, devolveria ao homem a função de representar politicamente a mulher e os filhos. Paulo Figueiredo, neto de João Figueiredo, último presidente do Brasil durante a ditadura militar e cupincha de Eduardo Bolsonaro, recentemente declarou que "as mulheres votam muito mal, especialmente as solteiras; mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido".
Minha desesperança, no entanto, vem menos de declarações de gente tosca como Figueiredo e mais da apatia com a qual elas são recebidas por boa parte do público, de como são entendidas como "apenas uma opinião", como "caso isolado". Seguimos vivendo nossas vidas como se não estivéssemos em meio a uma guerra contra nossos direitos básicos: de votar, de viver, de decidir sobre o nosso corpo.
Nesta semana, meu pessimismo foi interrompido pela notícia do festival Daisy Chain Fields, idealizado pela cantora Olivia Rodrigo. O evento beneficente teve sua estreia no último fim de semana de agosto, na Califórnia, reuniu cerca de 45 mil pessoas e um lineup inteiramente feminino.
Artistas como Chappell Roan e Doechii se apresentaram sem cobrar cachê, e 100% do lucro do evento foi destinado a dez organizações que atuam em áreas como saúde materna, direitos reprodutivos, proteção jurídica, violência doméstica e direitos das trabalhadoras. Antes mesmo da realização do festival, o projeto já havia arrecadado US$ 10 milhões.
O ativismo em prol da defesa das mulheres não é novo para a cantora que, aos 19 anos, usou o palco do festival britânico Glastonbury para protestar contra Suprema Corte americana que derrubou o direito constitucional ao aborto nos Estados Unidos.
Olivia me arrancou da desesperança porque me lembrou que existem muitas como ela no mundo —mulheres lutando uma luta muitas vezes inglória por outras mulheres. Infelizmente, o otimismo não tem resistido a cinco minutos de TV ligada durante as sabatinas de presidenciáveis. Quando nem quem se diz progressista tem coragem de falar a palavra "aborto", percebemos o buraco em que estamos.


