No seriado norte-americano "Green Acres", exibido no Brasil ao final da década de 1960 sob o título "O Fazendeiro do Asfalto", Oliver Douglas é um advogado de sucesso em Nova York que abandona tudo para se tornar fazendeiro na fictícia e decadente cidade de Hooterville. Sua esposa, Lisa, interpretada pela glamorosa atriz húngara Eva Gabor, acompanha o marido, mas não esconde o quanto preferiria continuar morando na Quinta Avenida nova-iorquina. O fluxo cômico do seriado, delicioso, emana do contraste entre a visão idílica que Oliver tem da vida no campo e a realidade do convívio com a retrógada Hooterville e seus excêntricos habitantes.
Mas a série também se debruça sobre diversos temas de atualidade, como o advento dos computadores ou a corrida espacial, do ponto de vista da classe média da época. Eu lembro particularmente do episódio em que Lisa tenta ajudar o filho do vizinho com o dever de casa de matemática e fica perplexa: "Querido, eu achei que tinha aprendido tudo direitinho na escola, mas acho que não entendo nada desta nova matemática de que estão falando. Parece que tudo que fazem é desenhar diagramas no papel, e ninguém mais quer saber de fazer contas".
Foi meu primeiro contato com aquilo que ficou conhecido como "a matemática moderna". Anos depois, quando cheguei ao ensino médio, a matemática moderna já estava sendo removida dos currículos e, para mim e muitas outras pessoas, ficou a memória de um experimento que não teria dado certo. Mas a história verdadeira é mais sutil do que isso, e importa resgatar o quanto a matemática que ensinamos hoje nas escolas deve a esse experimento.
A matemática moderna foi uma iniciativa de reforma do ensino que ganhou força nos anos 1950 e 1960, com o objetivo de aproximar a matemática ensinada nas escolas daquela que estava sendo produzida pelos pesquisadores da área nas universidades. A iniciativa foi fortemente influenciada por Nicolas Bourbaki, um grupo de destacados matemáticos franceses que, por essa altura, estava reorganizando todo o edifício lógico da matemática a partir das ideias fundamentais da teoria dos conjuntos e outras noções abstratas.
Os proponentes acreditavam que o novo ponto de vista apresentava uma visão mais coerente e unificada da disciplina, seria mais adequado para desenvolver o raciocínio abstrato dos estudantes e, de modo geral, os prepararia melhor para acompanhar os avanços da ciência e da tecnologia. Aliás, nos Estados Unidos o movimento ganhou ímpeto a partir da preocupação, durante a Guerra Fria, em melhorar a formação científica dos norte-americanos em resposta ao lançamento do satélite soviético Sputnik em 1957.
Conforme comentei aqui anteriormente, a introdução da matemática moderna no Brasil, nas décadas de 1960 e 1970, deveu muito à liderança do professor Osvaldo Sangiorgi à frente do Grupo de Estudos do Ensino da Matemática de São Paulo.
Para muitos adultos da época, como Lisa, os novos ensinamentos causavam estranheza. As crianças pareciam passar seu tempo fazendo diagramas de conjuntos e usando ideias e símbolos cujo significado não compreendiam, e que pareciam muito distantes da vida real.
Tudo isso levou a que, durante os anos 1970, a denominação "matemática moderna" fosse gradualmente abandonada. Mas ela deixou um legado muito significativo no ensino de matemática no mundo todo. Comentarei na semana que vem.




