Engajar estudantes em textos clássicos de autores como Machado de Assis ou José de Alencar nunca foi tarefa fácil. No caso das gerações nativas digitais, a missão é ainda mais desafiadora, já que crescem e estão imersas em um contexto de sobrecarga informacional.
Nesse cenário, escolas têm apostado em estratégias que colocam os adolescentes no centro das decisões sobre leitura, com clubes do livro, escolhas coletivas de obras e projetos em que os próprios alunos atuam como mediadores literários. A ideia é transformar a leitura em uma experiência compartilhada entre os estudantes.
Anaídes Silva, professora de português da Escola Estadual Paulo Octávio Azevedo, na zona sul da capital paulista, diz que mudou a abordagem em sala de aula para captar a atenção dos adolescentes, cada vez mais dispersos.
"Antigamente, a gente mandava um, dois capítulos para casa e eles liam. Hoje tem muito mais coisa competindo com a atenção deles", afirma. "Eu costumo dizer que, antes de ler, tem que apresentar, contextualizar, mostrar o cheiro do livro."
Para ela, o uso excessivo de telas explica parte dessa mudança de comportamento, mas a docente não vê as redes como inimigas.
Em 2025, quando o vídeo de uma influenciadora norte-americana viralizou lendo "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, Silva usou o gancho para abordar a obra em sala de aula. "Os alunos vieram empolgados me mostrar [o vídeo], e eu fiz uma leitura dirigida com eles."
"Não é que os estudantes não leiam; eles podem não ter o hábito de pegar um livro, sentar e ir do começo ao fim", diz a professora de português Andrea Maggi, que leciona para turmas de ensino fundamental e médio na rede particular de Belo Horizonte (MG).
"Isso tem a ver com a mudança da sensação de tempo. O volume de informação que chega para gente hoje é em grande quantidade e de forma muito acelerada", explica.
Para driblar esse fenômeno, ela mescla a abordagem de clássicos da literatura com contemporâneos e faz discussões antes e depois com os alunos.
"A gente debate: o que essa leitura traz? Mesmo tendo sido escrita há bastante tempo, o que ainda reflete nos dias de hoje? E agora, na era digital, como que seria esse personagem?"
No projeto Mediadores da Leitura, da Emef Ruy Barbosa, escola municipal da zona norte, alunos do 6º ao 9º ano apresentam livros e contam histórias a estudantes mais novos em fase de alfabetização.
"Eu acho que esse projeto faz as crianças lerem mais porque elas se inspiram nos mais velhos. Acaba sendo bom até para mim. Depois que eu comecei a participar, passei a ler muito mais", conta Guilheme, 13, aluno do 8º ano.
"Faz a gente se soltar mais, perder aquela vergonha e não ficar gaguejando enquanto lê", complementa Ana Claudia, 13.
São os próprios estudantes do ensino fundamental 2 que escolhem os títulos a serem trabalhados com os menores.
"Ter essa autonomia, esse planejamento participativo, é importante para que eles tenham esse contato com o livro", explica Vanusa Rosa Ferreira, professora de português e coordenadora do projeto.
A escola também mantém um clube de leitura com os alunos a partir do 4º ano do ensino fundamental, em que os participantes decidem os livros que são lidos coletivamente. As vagas para participar de ambas as atividades extracurriculares são disputadas, segundo Ferreira.
"Eles buscam esse contato com o livro e com o outro. E também buscam fugir desse mundo tecnológico em que estão imersos, querem o contato com o livro físico."
Uma proposta semelhante ocorre no Vera Cruz, colégio particular da zona oeste paulista. No círculo de leitura, que ocorre até duas vezes por trimestre, estudantes escolhem um título entre uma lista de opções para se aprofundar na obra. A atividade é obrigatória para alunos do 6º ao 9º ano.
"Nós temos que ler, fazer fichamento e apresentar aquele livro para a turma", explica Mariana, 12. Para ela, o círculo é uma forma de entrar em contato com títulos que, em geral, ela não iria se interessar. "Se eu só ficasse nos meus livros de conforto, acho que tem coisas que eu jamais estaria pensando agora."
A atividade faz com que os adolescentes exercitem o debate literário de forma coletiva e não apenas centrada na figura do professor, segundo Clara Remkus, coordenadora de língua portuguesa dos anos finais do ensino fundamental do Vera Cruz.
"Abre espaço, inclusive, para falar sobre os fracassos na leitura, discutir por que não gostou ou por que desistiu de um livro, validando a realidade de qualquer leitor."
Outra estratégia para estreitar os laços dos alunos com a leitura são as visitas às bibliotecas. A Biblioteca Parque Villa-Lobos, no Alto de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, recebe, em média, 11 escolas por mês.
O espaço conta com sala de leitura, acervo de quadrinhos e mangás, jogos de tabuleiro, videogames, computadores e outras atividades lúdicas.
"Tentamos criar um espaço que seja uma porta de entrada para crianças e adolescentes que não gostam de ler desenvolverem o hábito de leitura", diz Wellington Custódio, coordenador de atendimento e mediação da Biblioteca Parque Villa-Lobos.
Os computadores e videogames ficam abertos ao público geral, mas há limite de tempo para uso. Custódio explica que a regra visa atiçar o interesse dos jovens em outras atividades oferecidas pela instituição.
A proposta encanta mesmo aqueles que já têm apreço pela leitura, como Wagner Alan, 14, aluno do 8º ano no CEU Emef Jaguaré. O estudante é fã de livros sobre histórias de guerras e conheceu a biblioteca durante a visita feita pela escola.
"Eu não imaginava que tinha videogames, sala de jogos, coisas assim. Nem um auditório. Pensava que era só uma biblioteca."


