A Polícia Civil de São Paulo investiga se o grupo suspeito de vender para funerárias os dados sigilosos de mortos recentes comprou nos últimos anos uma série de itens de luxo, entre eles dois Porsches, uma BMW e uma lancha, com recursos provenientes do esquema.

Na manhã desta quinta-feira (29), a Corregedoria da polícia e a Prefeitura de São Paulo deflagraram uma operação contra a suposta organização criminosa.

O grupo é investigado por obter ilegalmente, por meio de pagamentos a agentes públicos e funcionários de hospitais, os registros de óbitos na capital paulista para favorecer empresas do setor funerário.

Uma das empresas citadas é a concessionária Velar SP, escolhida em 2023 pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) para administrar seis cemitérios municipais, como Vila Alpina, Itaquera e Freguesia do Ó.

O grupo é suspeito de crimes contra a administração pública, corrupção, acesso indevido a informações sigilosas, lavagem de capitais e outros delitos correlatos.

Segundo a polícia, o esquema contava com a participação de pelo menos dois policiais civis, empresários do setor funerário e ao menos um servidor do SP Regula, órgão municipal responsável pelo acompanhamento das concessões municipais.

Os dois Porsches, modelo 718 Boxster, teriam sido adquiridos pelo grupo em setembro de 2024 e são avaliados em R$ 700 mil cada. Um dos veículos já teria sido vendido.

Segundo os policiais, os carros eram iguais, inclusive da mesma cor branca. Há a suspeita de que essa escolha teria como objetivo dificultar uma possível investigação.

Há indícios de que eles eram utilizados por Osvaldo Pereira da Silva, um dos diretores da Velar SP, e pelo policial civil Paulo Henrique Pierini Guimarães, que atua no Denarc.

Documentos da Junta Comercial apontam que os dois são sócios em uma empresa de gestão patrimonial.

O grupo também teria comprado uma BMW e uma lancha, de acordo com a apuração. O carro foi encontrado pelos investigadores da Corregedoria, que ainda procuram a embarcação.

A Folha não conseguiu identificar a defesa dos suspeitos. A reportagem enviou emails para os investigados pela operação no início da tarde desta quinta (29), mas não obteve resposta.

Em nota à Folha, a concessionária Velar SP afirmou que não teve acesso aos autos nem à decisão judicial que fundamentou a operação, mas que "permanece à disposição das autoridades para contribuir com o esclarecimento dos fatos".

"A Velar reafirma seu compromisso com a lisura de sua atuação e com o respeito às famílias atendidas, repudia quaisquer práticas ilícitas e esclarece que já havia se colocado à disposição das autoridades para colaborar", completou a empresa.

Questionada sobre quem seria o responsável pela defesa de Silva, diretor da empresa, a Velar não respondeu.

Além da concessionária, as buscas abrangem outras três empresas do setor funerário, um escritório de contabilidade, uma delegacia e a SP Regula, órgão municipal responsável pelo acompanhamento das concessões municipais. Um servidor da agência é suspeito de participação no esquema.

Além das buscas, a Justiça autorizou a quebra dos sigilos telefônico e telemático dos investigados para complementar as provas já reunidas.

Segundo policiais ouvidos pela Folha, foram encontrados indícios de ocultação patrimonial e de movimentações financeiras incompatíveis com as atividades formalmente declaradas pelos investigados.

Em nota, a gestão Nunes afirma que a investigação teve origem a pedido da prefeitura. Além da responsabilização penal cabível, a investigação busca identificar vulnerabilidades sistêmicas e oportunidades de aperfeiçoamento dos mecanismos de controle interno, governança e integridade.

"A Polícia Civil do Estado de São Paulo e a Prefeitura de São Paulo reafirmam seu compromisso com a apuração rigorosa de qualquer irregularidade na administração pública", diz nota.

Como funcionava o suposto esquema

- Policiais civis tinham acesso ao sistema do SVO e IML de onde obtinham informações de óbitos recentes

- Os dados do morto e de contatos de parentes eram repassados a uma empresa de telemarketing ligada ao grupo

- Empresa ligava para os parentes oferecendo serviços e produtos funerários, como transporte e caixões, com preços acima do mercado;

- Não eram mencionadas a gratuidade do serviço ou tarifa social

- Traslados de caixões, por exemplo, chegavam a custar R$ 30 mil

- Com informações privilegiadas, a Velar conseguir chegar mais rápido às famílias e, assim, vencer a concorrência com as outras três concessionárias

- Essa rapidez também permitia alcançar o parente em um momento de fragilidade e, assim, ter menos resistência de não aceitar o produto oferecido

- Funcionários de hospitais públicos e particulares também ajudavam funcionários da Velar a abordar parentes

Fonte: Investigação da Polícia Civil