Em julho, enquanto a fumaça dos incêndios florestais no Canadá avançava para o sul, autoridades de Nova York iniciaram medidas de emergência diante da previsão de uma qualidade do ar historicamente ruim.
Agentes de assistência social percorreram toda a cidade. Policiais distribuíram máscaras. Durante parte do dia 16 de julho, Nova York ficou em terceiro lugar no mundo entre os lugares com o ar mais poluído.
Depois, o céu começou a clarear, e a operação foi encerrada. Mas, de certa forma, a emergência não havia terminado. Uma série de estudos constatou que, mesmo após o desaparecimento da fumaça, os incêndios florestais agravam a poluição do ar de maneiras sutis e inesperadas.
Pesquisas já quantificaram os riscos, ao longo do tempo e em extensas áreas geográficas, das pequenas partículas conhecidas como PM2,5, um dos componentes da fumaça das queimadas. Agora, porém, cientistas alertam para outro perigo invisível e crescente: o ozônio ao nível do solo.
O gás ozônio ocorre naturalmente e, na atmosfera, exerce uma função protetora, resguardando o planeta da radiação solar. Ao nível do solo, porém, ele é tóxico para o revestimento das vias respiratórias humanas. Esse gás já foi associado a índices mais elevados de asma em crianças, além de doenças cardíacas e problemas pulmonares em adultos.
"Há pouquíssima dúvida de que a exposição ao ozônio pode causar mortes prematuras", afirmou o médico John Balmes, pesquisador da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que estuda o elemento.
O ozônio ao nível do solo é monitorado em cerca de 1.200 locais nos Estados Unidos. Mas essas medições abrangem apenas cerca de 2% do país, e a maioria dos sensores está concentrada nas cidades. Jun Wang, químico atmosférico da Universidade de Iowa, decidiu, junto com seus colegas, elaborar um mapa melhor. Era um projeto ambicioso.
Wang trabalhou com uma equipe que utilizou aprendizado de máquina, um tipo de inteligência artificial, para processar enormes volumes de dados de satélites, medições em superfície e modelos atmosféricos e, assim, calcular os níveis de ozônio por quilômetro quadrado em todo o país. Os resultados, publicados em junho na revista Science, foram preocupantes.
Assim como as concentrações de PM2,5, os níveis de ozônio caíram de forma constante ao longo do início dos anos 2000. Mas, em 2015, voltaram a subir, uma mudança que havia "passado despercebida pela esparsa rede de monitoramento", escreveram os autores.
Ninguém havia notado que, por mais de uma década, os incêndios vinham anulando continuamente os avanços obtidos no combate ao ozônio. "A tendência se inverteu exclusivamente por causa dos incêndios florestais", afirmou Meng Zhou, pesquisador da Nasa e um dos autores do estudo. "Não esperávamos que o impacto fosse tão grande."
Os pesquisadores estimaram que, entre 2022 e 2024, 43 milhões de pessoas foram expostas a níveis potencialmente perigosos de ozônio por causa dos incêndios florestais.
A magnitude do efeito surpreendeu até mesmo Balmes. "É como se tivéssemos perdido de três a seis anos de progresso", disse ele. "É algo bastante dramático."
Minghao Qiu, cientista atmosférico da Universidade Stony Brook, liderou uma equipe que utilizou uma abordagem semelhante de aprendizado de máquina para estudar a interação entre a fumaça e o ozônio.
Os resultados, publicados em abril na revista Science Advances, confirmaram de forma independente que os níveis de ozônio disparam em dias de fumaça, reforçando a conclusão de que os incêndios florestais têm impulsionado o aumento do ozônio ao nível do solo.
Qiu disse que a agência ambiental americana atuou ativamente para reduzir a poluição por ozônio de fontes industriais desde a criação da Lei do Ar Limpo, de 1963. "Mas agora introduzimos uma nova fonte, e ela está mudando muito rapidamente", afirmou.
O artigo identificou outra tendência inquietante: embora os incêndios no Oeste do país afetassem sobretudo os níveis de PM2,5 naquela região, os efeitos sobre o ozônio ocorriam principalmente no Leste. Ou seja: os incêndios agravavam os níveis de ozônio a milhares de quilômetros de distância, onde não havia nenhuma fumaça no céu.
Segundo Wang, cada um de nós respira cerca de 18 quilos de ar por dia. A área da superfície dos pulmões supera em muito a de outros pontos de contato do corpo com o ambiente externo: equivale ao dobro da área do intestino e a 30 vezes a da pele. É pela respiração, mais do que por qualquer outra via, que nosso corpo entra em contato com o mundo.
"As pessoas prestam atenção à alimentação, mas será que dão a mesma atenção à qualidade do ar?", questionou Wang. "A quantidade de ar que consumimos é muito maior, mas não pensamos nisso."
O cientista atmosférico Daniel Jaffe, da Universidade de Washington, disse que é importante reconhecer que a maior parte do ozônio ainda vem das emissões industriais e que a regulamentação dessas fontes continua sendo crucial.
Mas o aquecimento global está acelerando, e um futuro mais quente e seco trará incêndios cada vez maiores.
No ano passado, Qiu fez parte de uma equipe que utilizou aprendizado de máquina para prever o impacto futuro da fumaça dos incêndios florestais. Em um cenário de forte aquecimento, projetaram que a fumaça poderia causar cerca de 2 milhões de mortes nos Estados Unidos nos próximos 30 anos.
Os impactos econômicos eram ainda mais difíceis de dimensionar: os custos associados às mortes relacionadas à fumaça superavam os de todos os demais danos climáticos somados.
"Todo esse campo está evoluindo muito rapidamente, porque os próprios incêndios florestais estão mudando muito depressa", afirmou Qiu. "Até cinco anos atrás não tínhamos incêndios de tamanha magnitude."




