A devoção a Nossa Senhora está muito bem servida, obrigada. Em "Tantas Marias", seu novo livro pela Record, o escritor e historiador Luiz Antonio Simas fala dos incontáveis títulos de Maria, as chamadas invocações marianas.

Só para ficar em alguns dos mais populares no Brasil: tem a da Penha, das Dores, do Rosário, do Carmo e Nazinha, figura central no Círio de Nazaré, o maior ato religioso da amazônia.

Todas elas gigantes, mas só uma é a padroeira nacional. O que Nossa Senhora Aparecida tem que outras representações da Virgem Maria não para ganhar tanto destaque no imaginário brasileiro?

Simas já chega lá, mas antes não vai escapar de discutir a celeuma em torno de Aparecida e do feriado desta segunda (12), dedicado a ela. Ele lembra bem qual foi o dia em que acabou de escrever seu livro porque era Dia de São João, 24 de junho. E aí, três meses depois, Aparecida aparece com tudo na campanha eleitoral, após Flávio Bolsonaro (PL) ser acusado, sem evidências, de querer ressuscitar um projeto de lei arquivado 18 anos atrás, que propunha revogar da santa o posto de padroeira.

O autor confessa que ficou "um pouco surpreso" com a polêmica requentada, que esbugalhou "a disputa por um certo mercado da fé que está se desenhando há muito tempo no Brasil", contrapondo setores evangélicos e Igreja Católica, diz.

Enquanto grupos pentecostais defendem que não se deve adorar ninguém além de Deus, os católicos sustentam a distinção teológica entre adoração (devida a Deus) e veneração (prestada a Nossa Senhora e santos em geral).

Se o tema ressurge num pleito sem debates maiores sobre projetos para o país, em meio a um "tiroteio para saber quem é que desgasta mais o outro", é justo dizer que movimentos para destituir Aparecida existem, sim, e não é de hoje, afirma Simas.

Ou não teríamos episódios como o chute dado numa imagem da santa por um bispo da Universal, em 1995, ou falas como a de JB Carvalho, líder de uma igreja frequentada por Flávio em Brasília —JB já questionou a legalidade do feriado de 12 de outubro e disse que "Deus odeia o culto à Rainha dos Céus".

Mas por que, afinal, Aparecida é tão popular no país?

O destaque institucional consolidou-se em 1930, quando o papa Pio 11 oficializou Nossa Senhora Aparecida como "rainha e padroeira do Brasil". Antes dela veio São Pedro de Alcântara, também padroeiro nacional, vinculado ao imaginário da monarquia brasileira —dom Pedro 1º e dom Pedro 2º, pai e filho, chamavam-se Pedro de Alcântara justamente por causa da devoção da família real a esse santo.

Não dá para desconsiderar que o culto a Aparecida vai crescendo "num momento em que você está tentando construir uma ideia de identidade nacional muito fincada no imaginário do Sudeste", diz o autor.

Em 1717, três pescadores recolheram do Paraíba do Sul, rio que corta a região no interior de São Paulo, primeiro o corpo e depois a cabeça de uma imagem de madeira de Nossa Senhora da Conceição. Reza a lenda que testemunharam em seguida uma pesca milagrosamente abundante.

Aqui entra o componente racial. Conceição, retratada como branca, emergiu enegrecida na rede de pesca. "Os cientistas debatiam para saber por que ela ficou negra: se foi a fuligem, se foi o lodo do rio."

Seja qual for o motivo, o povo brasileiro a acolheu como uma "mãe preta", identificação fundamental para a construção do seu culto entre a população negra, os trabalhadores escravizados e as classes populares, segundo o historiador.

O cristianismo popular no Brasil colonial, por sinal, não seria o que foi sem irmandades como a de Nossa Senhora da Boa Morte, vinculadas à população escravizada. A Igreja ainda tinha uma estrutura frágil naqueles tempos, o que favoreceu a elaboração de uma fé à margem da hierarquia católica rígida.

Simas já falou de política e já falou de religião, então às favas com o ditado popular que recomenda não discutir esses dois temas aí mais o futebol. Ele lembra como Aparecida foi parar também no gramado.

A final da Copa do Mundo de 1958 ilustra bem esse entroncamento. A seleção brasileira perdeu no sorteio o direito de jogar de amarelo a partidadia.

Como a camisa branca era tida como sinônimo de azar após a derrota de 1950, vieram camisas azuis na véspera. Jogadores foram acalmados com a seguinte justificativa: era a mesma cor do manto de Aparecida, e a santa entraria em campo com eles. O Brasil venceu a Suécia por 5 a 2 para conquistar seu primeiro título mundial.

"Esses encruzilhamentos todos marcam a cultura brasileira de uma forma bastante complexa", afirma Simas, que aponta como o apego a Aparecida no país transcende os ritos católicos. Virou patrimônio brasileiro, tema do cancioneiro popular (como "Romaria", de Renato Teixeira), da poesia modernista (um poema de Oswald de Andrade a compara ao Pão de Açúcar) e de enredos carnavalescos.

Tudo bem que Aparecida é espaçosa, mas onde cabe uma Maria, cabem várias. Pois Simas nutre seu livro com um saboroso apanhado mariano.

A tradicional Festa de Nossa Senhora da Penha, no Rio, unia missas, capoeira e rodas de samba de mães de santo como Tia Ciata. O poeta Olavo Bilac chegou a defender a proibição da festa, que para ele não passava de uma "escandalosa e selvagem romaria".

O autor também evoca Lampião, devoto fervoroso de Nossa Senhora do Carmo. Ele se recusava a fazer rituais de fechamento de corpo com o que um colega de cangaço chamava de "diabos dóceis". Temente a Deus, não queria dever favores a Satanás.

No dia de sua morte, estava sem o escapulário da sua santinha. A literatura de cordel imortalizou o burburinho popular da época: sem essa proteção, Lampião foi impedido de entrar no céu por São Pedro e barrado no inferno pelo diabo.

Há referências anedóticas, como o bispo que, em 1937, mandou retirar de uma igreja de Monte Sião (MG) a imagem de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa. Considerou a estátua "excessivamente feminina e sensual", por delinear demais o busto e a cintura de Maria.

Removeram a santa, e uma seca devastadora atingiu a cidade por dois anos. Chovia normalmente nos municípios vizinhos. A população, furiosa, exigiu o retorno da Milagrosa. Um temporal daqueles desabou durante a procissão para trazer de volta a santa. Chuva de bênção.