Promessa jamais concluída da Olimpíada do Rio, em 2016, a obra de implantação da estação da Gávea, do metrô do Rio de Janeiro, foi retomada no ano passado, tem avançado na abertura dos túneis e alcançou 30% de execução em setembro.
Em julho deste ano o Rio completou uma década desde a última inauguração de uma estação de metrô, a do Jardim de Alah, no Leblon.
A estação da Gávea, na zona sul, é vista por especialistas como um marco da estagnação da malha metroviária fluminense. Projetada para inauguração antes dos Jogos, a obra começou em 2013 e foi paralisada em 2015 sob suspeita de superfaturamento e sob a nuvem da crise fiscal do estado.
Em 2018 a estação foi submersa com água do próprio lençol freático para sustentar o que já havia sido escavado e evitar desmoronamento.
Cerca de 60 milhões de litros de água inundaram o local até o ano passado, quando a obra foi destravada, por meio de um contrato entre a concessionária Metrô Rio, o governo do estado e a autarquia RioTrilhos. A previsão de conclusão da obra é 2028.
"Quando não se soube quando a obra ia retomar, encheu-se de água. Assim, você usa a pressão da água para estabilizar o solo. Quando foi a hora de tirar, tivemos de fazer isso de maneira controlada: a gente tirava de 50 cm a 60 cm de altura de água por dia. O cronograma previa cinco meses para retirar a água, mas o comportamento do solo foi muito bom e fizemos em três meses", afirma Silvio Godoy, diretor de implantação do MetrôRio.
A água foi encaminhada para um córrego ao lado da obra, sob fiscalização do Inea (Instituto Estadual do Ambiente). A escavação, feita por meio de pequenas detonações diárias, é feita por um consórcio de construtoras, liderado pela Novonor, antiga Odebrescht.
A Folha visitou a obra em setembro e observou funcionários trabalhando na escavação. Pouco mais de 200 metros de túnel foram construídos, em direção a São Conrado. Os trabalhadores se alternam em turnos entre 6h e 22h.
A concessionária estima ter retirado 44.200 metros cúbicos de rocha desde a retomada das obras, em agosto de 2025, o que corresponde a cerca de 3.400 caminhões basculantes.
As detonações com dinamites acontecem até três vezes por dia, antecedidas por sirenes que servem de alerta tanto para funcionários, quanto para a vizinhança. A estação é construída em frente à PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio), com agitada movimentação de estudantes. Também é uma área residencial.
"O método de escavação que usamos é o mais antigo do mundo, mais lento, porém mais seguro e mais barato do que o famoso tatuzão. A tuneladora é aplicada para obras de 3 km ou mais. Aqui faltava escavar 300, 400 metros", diz Godoy.
A futura estação ficará a 53 metros de profundidade. Será a mais profunda do metrô carioca.
"Essa estação será a única com essa profundidade, no sistema de entrada e saída direta. Há outras estações tão profundas quanto essa, mas com mezaninos intermediários", afirma Lilian Natal, coordenadora de implantação do MetrôRio.
A estação da Gávea será ligada apenas à estação São Conrado, uma ponta solta no mapa metroviário do Rio. São Conrado faz parte da linha 4, que conecta a Barra da Tijuca, zona sudoeste, à Tijuca, zona norte.
Sem a Gávea, que constava no plano, o ramal foi inaugurado em agosto de 2016 com cinco estações nas zonas sul e sudoeste: Jardim Oceânico, na Barra; São Conrado; Jardim de Alah e Antero de Quental, no Leblon; e Nossa Senhora da Paz, em Ipanema.
O acordo com o governo do estado prevê que a linha 4 do metrô, da qual a concessionária MetrôRio tinha apenas a operação, ficará sob concessão da empresa até 2048. Ela será obrigada a investir R$ 600 milhões na obra. O governo do estado complementou com mais R$ 97 milhões.
O metrô fluminense, que em 2019 atingiu 884 mil passageiros, em média, por dia útil, hoje opera com 26% a menos da capacidade (650 mil passageiros diários).
A concessionária atribui à pandemia e às consequentes mudanças no perfil de deslocamento, como a popularização de corridas de carro e moto por aplicativo. Também aponta a sobreposições de modais, como ônibus municipais que fazem o mesmo trajeto daqueles oferecidos pelo metrô.
O modal só circula pela capital. A tarifa é mais cara do país, a R$ 7,90. Há uma modalidade de tarifa social a R$ 5,00, mediante comprovação de menor renda.
A obra da Gávea foi destravada durante gestão do ex-governador Cláudio Castro (PL), com costura do então secretário de Transportes Washington Reis (MDB).
O programa de governo de Douglas Ruas (PL), governador eleito em primeiro turno, não detalha se e como fará a expansão do metrô. O documento de campanha menciona "acompanhar a finalização do projeto da linha 3 do metrô e realizar captação de recursos para sua implementação".
O eixo de transporte do governador eleito foca no uso de ônibus —fala em conectar vias expressas, fazer corredores viários na Baixada Fluminense, redesenhar linhas de ônibus intermunicipais e expandir faixas exclusivas.
A linha 3 citada por Ruas está desenhada desde 1968. Prevê a conexão entre o centro da cidade até São Gonçalo, na região metropolitana, passando por Niterói. Para tal, passaria sob a baía de Guanabara. Foi promessa ainda nos anos 1990, na tentativa do Rio de sediar os Jogos Olímpicos de 2004.
Em setembro, um acordo entre BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e o governador interino Ricardo Couto propôs novos estudos para expansão do metrô fluminense.
As propostas envolvem a implantação do metrô entre Alvorada —terminal rodoviário de grande fluxo na Barra da Tijuca—, e o bairro do Cocotá, na Ilha do Governador; a implantação do metrô da Gávea até Del Castilho, bairro da zona norte; a implantação de uma linha de metrô do centro até Deodoro, bairro populoso da zona oeste; e outra linha que vá até São Gonçalo.
"Valorização do transporte público coletivo não tem sido prioridade. Há uma série de intervenções feitas pensando nos carros. Há dez anos houve a última inauguração de metrô e, mesmo na época, o objetivo era o deslocamento para os Jogos. Houve pouca transparência em relação aos gastos, uma recorrência dos investimentos públicos no Rio", afirma Vitor Mihessen, economista e cofundador da Casa Fluminense, organização que formula e monitora políticas públicas na região metropolitana do Rio.
O Mapa das Desigualdades, estudo divulgado este mês pela organização, com base em dados do Censo IBGE 2022, indica que São Gonçalo e municípios da Baixada, como Belford Roxo e Nova Iguaçu, concentram as maiores médias de deslocamento para o trabalho. Nenhum tem oferta de metrô.
"O deslocamento de uma hora e meia é comum nesses territórios. Em um ano, isso representa um mês que a pessoa passou dentro do trem, no metrô, ou no engarrafamento", diz Mihessen.
