Lojas de eletrônicos, boxes de shopping, estabelecimentos que se apresentam como assistências técnicas e imóveis usados como depósitos na área central da capital paulista formam, segundo investigação do Ministério Público de São Paulo, a estrutura para desmontar, desbloquear e devolver ao mercado celulares roubados e furtados.

O perímetro identificado como suporte para esse mercado paralelo inclui as ruas Santa Ifigênia e Guaianases, a região da 25 de Março e o Shopping Mundo Oriental, segundo levantamento realizado ao longo de dois anos pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado).

Os agentes da Operação Frankmobile cumprem nesta quinta-feira (10) mandados de busca e apreensão nessas áreas.

A reportagem procurou o Shopping Mundo Oriental por meio de email e telefonemas na manhã desta quinta-feira, mas ainda não houve manifestação.

O ponto central da investigação que levou a esses locais foi uma leitura econômica das estatísticas. São Paulo registrou 154 mil celulares roubados ou furtados em 2025, uma média de 17 aparelhos por hora. Apenas 6% foram devolvidos aos donos.

Para o Gaeco, a baixa taxa de recuperação foi um sinal da existência de uma estrutura de receptação capaz de absorver rapidamente os aparelhos. Ou seja: furtar ou roubar um celular é relativamente simples, mas o que transformaria isso em um negócio recorrente seria a existência de uma cadeia de receptação capaz de absorver o aparelho em minutos, neutralizar bloqueios, adulterar o IMEI —o código que identifica cada aparelho— e revendê-lo inteiro ou em peça.

A proximidade física entre os estabelecimentos investigados e os locais apontados pelos últimos sinais de rastreamento dos aparelhos foi um dos elementos usados pelo Ministério Público para identificar a logística e o funcionamento do esquema.

Na descrição dos investigadores, as áreas funcionariam como um "corredor técnico-comercial": aparelhos subtraídos chegam aos primeiros receptadores, passam por técnicos capazes de neutralizar mecanismos de segurança e rastreamento e podem retornar ao comércio como celulares usados ou peças de reposição.

Na rua Guaianases e imediações, por exemplo, a investigação identificou uma concentração de sinais de rastreamento apontando a região como a última localização conhecida de celulares roubados e furtados.

Segundo o Gaeco, é ali que aparelhos seriam entregues aos primeiros receptadores, que tentariam acessar aplicativos bancários e dados pessoais das vítimas antes de encaminhá-los para as etapas seguintes.

Um dos focos da investigação foi o Shopping Mundo Oriental, na rua Barão de Duprat, onde investigadores miraram lojas e funcionários. O que encontraram ajuda a entender como funciona o aproveitamento econômico dos aparelhos roubados.

Em estabelecimentos que se apresentavam como assistências técnicas, funcionários confirmaram aos investigadores a comercialização das chamadas "peças retiradas", expressão usada para componentes extraídos de outros celulares, ao lado de peças "paralelas".

Em uma das lojas, por exemplo, um cartão de visita trazia na parte impressa referências a "PEÇAS RETIRADA", "PLACA MÃE" e "PLACA CARGA", além de marcas de diferentes fabricantes de celulares. No verso, havia preços anotados à mão.

Para o Gaeco, o material indicava a existência de uma tabela informal de preços e levantava dúvidas sobre a origem dos componentes comercializados.

Em outra assistência técnica, a ficha usada para receber aparelhos registrava nome, RG, defeito, valor, data de entrada e senha, mas, não exigia comprovação da propriedade ou da origem do telefone entregue à loja. Para os promotores, a rotina permitiria receber aparelhos de terceiros sem verificar sua procedência.

Para o Gaeco, estabelecimentos do shopping faziam uma espécie de "lavagem técnica" de componentes. Nesses locais, eram adotados processos que permitiriam romper a ligação entre o aparelho ou suas peças e o crime que lhes deu origem.

Entre as técnicas identificadas estão remoção do vínculo com contas de nuvem, desbloqueio remoto, substituição de placas-mãe e adulteração do IMEI. Com isso, celulares ou componentes poderiam voltar a circular em lojas físicas ou plataformas de comércio eletrônico.

O Gaeco afirma ter identificado práticas semelhantes em lojas de comércio e assistência técnica na região da Santa Ifigênia.

Segundo a investigação, esses estabelecimentos também fariam desmonte, reprogramação e adulteração de IMEI, além da venda e substituição de peças cuja origem é considerada suspeita pelos investigadores.