Durante décadas, os faquires bateram ponto no centro de São Paulo. Eles faziam parte da rotina de entretenimento da cidade. Entre as décadas de 1920 e 1960, eram um fenômeno de massas. Todos queriam vê-los cumprir missões impossíveis. A imprensa investia na cobertura do assunto e se espalhavam cartazes nas ruas chamando o paulistano para assistir ao vivo a mais uma façanha.

O faquir é aquele profissional hiper-resistente às piores situações adversas, com a capacidade de controlar a dor. Realiza tarefas bizarras como ser enterrado vivo, ser crucificado, caminhar sobre brasas ou cacos de vidro, passar mais de cem dias sem comer, deitar numa cama de pregos e ser acariciado por jiboias. A atividade atraía público em todo o Brasil e tinha um grande retorno publicitário, além de estimular apostas.

O faquirismo no país funcionava como uma atração esportiva nos anos 1950. A imprensa noticiava os recordes de jejuns brasileiros e mundiais e ajudava a monitorar a lisura do processo descobrindo impostores. Os principais faquires eram popstars, saíam em revistas e movimentavam o mercado.

Circulavam em pequenas e grandes cidades acompanhando os circos ou fazendo apresentações solo. O mais famoso em São Paulo foi Adelino João da Silva (1922-1998), conhecido como Silki. Sua vida era noticiada em detalhes, foi capa da revista O Cruzeiro e saiu no Jornal Nacional.

Havia faquires e faquiresas. Rossana, Malba, Sandra e Susy King eram mulheres que praticavam os jejuns e o manejo das cobras. No filme "Fakir", a diretora Helena Ignez conta a história de todas elas, que foram adoradas e perseguidas

Em São Paulo, vários lugares serviram de palco para os faquires, como o largo do Paissandu, a avenida São João e a praça da República. O cine Rivoli, na São João, era um lugar onde sempre havia espetáculos. Todas as segundas-feiras, dias de folga no circo, os artistas se reuniam nos bares da região.

Na sua despedida da profissão, em maio de 1980, Silki, aos 58 anos, bateu seu último recorde. Passou 115 dias sem comer fechado numa urna de vidro, dentro de uma casinha no Paissandu. É considerado o último suspiro do faquirismo no centro da cidade.

Quem mergulhou nos mistérios dos faquires foi José Mojica Marins, o Zé do Caixão, ator principal do filme "O Profeta da Fome", lançado em 1969, de Maurice Capovilla. Depois de ter feito o número da crucificação, o personagem descobre o jejum interminável e vira campeão mundial. O filme mostra a transformação das desgraças humanas, em especial a dor e a fome, em produtos de consumo.

Muitos fatores levaram o faquirismo a deixar de ser um entretenimento popular, inclusive esse observado no filme. A chegada da televisão, antes de mais nada, enfraqueceu as artes circenses e contribuiu diretamente para essa desaparição. A desmistificação do ilusionismo e da paranormalidade pela ciência tirou mistério da atividade. Para completar, o negócio também sofreu com fraudes.

No ano passado, foi lançado o livro "Silki – um Tratado Sobre a Arte do Faquirismo" (Desacato), de Alberto Camarero e Alberto de Oliveira. A obra descreve o período áureo da atividade em São Paulo.