O arcebispo da Arquidiocese de Aparecida (SP), dom Mário Antônio da Silva, disse nesta segunda-feira (12), dia da padroeira do Brasil, que "o evangelho não nos autoriza a odiar quem pensa diferente, nem a matar os inimigos".
Após figurar no centro de uma disputa eleitoral alimentada por notícias falsas, Nossa Senhora Aparecida é homenageada com missas e procissão no Santuário Nacional, no interior de São Paulo.
A fala do arcebispo ocorreu durante a homilia. Ele não realizou comentários com teor político explícito, mas ressaltou que o evangelho "nos autoriza a construir pontes onde se abrem precipícios, e túneis onde se erguem muros".
Citando o papa Leão XIV, defendeu "uma paz desarmada e desarmante" e criticou as divisões alimentadas por armamentos, guerras e confrontos. Também afirmou que a Igreja se fortalece quando seus integrantes caminham juntos.
Dom Mário associou a escuta da palavra de Deus ao cuidado com os outros e condenou a indiferença diante da fome, da pobreza, da violência, das guerras e da destruição da natureza.
A festa da padroeira do Brasil atraiu romeiros de diferentes estados a Aparecida, no Vale do Paraíba, a 180 km da capital paulista. Pedidos de cura, cumprimento de promessas e agradecimentos motivaram viagens até o santuário.
Parte dos peregrinos faz o percurso a pé pelo acostamento da rodovia Presidente Dutra. Neste ano, a concessionária RioSP projetava superar os 40 mil romeiros registrados em 2025.
A dimensão da caminhada levou a concessionária a preparar um estudo para construir uma via exclusiva para pedestres até Aparecida. O projeto depende de aprovação da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) e não tem data para o início das obras.
Na operação de 2026, a concessionária previa a distribuição de 30 mil coletes e 120 mil faixas reflexivas em 28 tendas ao longo da rodovia. Em trechos sem acostamento, cones reservam espaço para os pedestres.
A devoção também se expressa na Passarela da Fé, que liga a Basílica Histórica ao Santuário Nacional. Na celebração de 2025, a Folha acompanhou fiéis que atravessavam o trecho de joelhos para agradecer por graças alcançadas, vindos de estados como Minas Gerais e Tocantins.
Neste ano, dom Mário Antonio da Silva, 59, conduz pela primeira vez a missa do Dia da Padroeira como arcebispo de Aparecida.
Silva assumiu a arquidiocese em maio, em substituição a dom Orlando Brandes, cujo pedido de renúncia o papa Leão 14 aceitou.
A programação na cidade começou à meia-noite, com a Vigília Mariana. O toque dos sinos, às 4h45, antecede as missas das 5h e das 7h.
Ao meio-dia ocorre a Missa das Crianças. Outras celebrações estão previstas para as 14h e as 16h. Às 15h, a Basílica Histórica recebe a Consagração Solene. A missa de encerramento será realizada às 18h, seguida de procissão e show pirotécnico às 19h30.
Três séculos de devoção
A devoção a Nossa Senhora Aparecida começou em outubro de 1717, quando três pescadores encontraram uma pequena imagem de terracota no rio Paraíba do Sul. Primeiro, retiraram da água o corpo da estátua. Depois, a cabeça.
A representação de Nossa Senhora da Conceição passou a ser chamada de Aparecida em referência ao achado no rio. A prática se difundiu nas décadas seguintes e transformou o município em destino de peregrinação.
O Vaticano reconheceu Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil em 1930, após pedido dos bispos do país. Uma cerimônia no Rio de Janeiro, então capital nacional, celebrou a decisão em maio de 1931, com a presença do presidente Getúlio Vargas.
O dia dedicado à padroeira é feriado nacional desde 1980.
Disputa eleitoral
Neste ano, as homenagens ocorrem após a circulação da alegação falsa de que Flávio Bolsonaro (PL) apoiaria uma proposta para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. O assunto ganhou espaço na reta final do primeiro turno da disputa presidencial contra Lula (PT).
Não há registro de declaração do candidato ou de sua assessoria em defesa dessa mudança. Em agosto, o senador afirmou que um de seus primeiros atos, se eleito, seria "decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo", sem citar a retirada do título.
O boato retomou uma proposta apresentada em 2007 pelo então deputado Victorio Galli, hoje no PP e pastor evangélico. O projeto pretendia reconhecer Nossa Senhora Aparecida como padroeira apenas dos brasileiros católicos apostólicos romanos, mas acabou arquivado no ano seguinte.
Flávio negou a intenção de alterar o título da santa. Publicações sobre o assunto provocaram disputas judiciais, com decisões dos ministros André Mendonça, Flávio Dino e Luiz Fux determinando a remoção e o restabelecimento de conteúdos em redes sociais.


