O Brasil é esse projeto destinado ao fracasso, que o brasileiro tenta desmentir.

Colônia extrativista, nosso país foi favorecido por um acidente histórico: a vexatória fuga da família real portuguesa por medo do exército de Napoleão. O rei fujão largou seus súditos na mão e transformou o Brasil em sede do império português, fato sem paralelo na história colonial.

A chegada da corte permitiu a criação de dezenas de instituições, entre bancos, tribunais, escolas superiores, bibliotecas, academias científicas e artísticas e órgãos administrativos que, de outra forma, sabe-se lá quando seriam criados. Tudo isso há pouco mais de 200 anos.

O país não perdeu seu veio extrativista e colonial, bem representado por aqueles que batem continência para Trump, que já negocia com a turma do tarifaço a comercialização de terras raras.

Tampouco abriu mão da herança escravagista, escancarada nos milhares de trabalhadores que todo ano são libertados de condições análogas à escravidão e na resistência ao fim da desumana escala 6x1.

Também exige a submissão feminina, verdadeiro eco da exploração da terra, como nos ensina a antropóloga Rita Segato.

A fantasia de nobreza se replica na fobia que a elite tem de compartilhar espaços com a classe operária. Fato que o ex-ministro da Economia Paulo Guedes não disfarça, pois lhe rende a simpatia de inúmeros brasileiros, inclusive de pobres identificados com o discurso colonial.

Extrativismo, escravidão, aspiração nobiliárquica, misoginia, identificação com a matriz imperial, representada hoje pelos EUA, fazem parte da nossa herança.

O Brasil dá raiva, dá medo, ao mesmo tempo em que revela uma alegria insensata. Como se conjuga tudo isso?

Antes de ir a Sarajevo, imaginava encontrar um povo amargurado pela guerra fratricida dos anos 1990, cujos horrores foram amplamente noticiados. Para minha grata surpresa, deparei com uma cidade encantadora, com uma população jovem, supereducada e sorridente. Entendi que quem passou pelo pior tem chance de apreciar com alegria redobrada a paz e a prosperidade alcançadas a duríssimas penas.

Talvez isso explique em parte a tendência do brasileiro de se esbaldar sempre que a vida dá uma trégua. Além disso, há o prazer de não dar ao algoz o gostinho de te ver sofrer. Onde nos querem derrotados e tristes, insistimos em sorrir, como na antológica cena de "Ainda Estou Aqui" (2024). "Sorriam, nós vamos sorrir", diz Eunice Paiva, cujo marido foi assassinado pelas forças da ditadura, para o jornalista que queria uma foto da família dilacerada. Nesse ponto, celebrar é resistir, mostrar que ao menos em algum lugar ainda decidimos o que fazer com nossos corpos e nosso desejo.

Existe um Brasil que luta há 500 anos para se fazer reconhecer. Ele aparece no português que falamos, transformado em brasileiro pelas línguas africanas e indígenas. Ele está na cultura alimentar; nos hábitos de higiene; nos traços, nos cabelos e nos tons de pele; na música e na arte em geral. É a parte que cria nossa identidade única, é a que sobreviveu, que resistiu sorrindo, apesar da tentativa perene de seu apagamento.

A cada eleição escolhemos qual parte da nossa herança histórica queremos vingar.