Poucas palavras foram tão sequestradas quanto o termo mérito. Para quem já nasceu perto da linha de chegada, ela se transformou no "eu mereço". Cinismo de quem subtrai a herança inicial da contabilidade final. Seja raça, gênero, território ou classe, a conta não deveria eliminar as variáveis das quais resulta, sendo o esforço uma entre outras. Quanto mais frágil o mérito, mais histriônica a reivindicação, mais estreita a moldura na qual tentamos fazer caber o que chamamos de realidade.

A eleição de domingo pode devolver à palavra seu sentido pleno.

Luiz Inácio da Silva nasceu em 1945, em Garanhuns (PE), sétimo dos oito filhos de dona Lindu. O pai, Aristides, partiu para Santos antes de ele nascer. O menino passou fome num tempo em que não havia a rede de proteção social estruturada pelo governo Fernando Henrique Cardoso. Tampouco havia o Bolsa Família, criado com Lula, que unifica programas anteriores e que prioriza as mães que, como a dele, cuidam dos filhos sozinhas.

Aos sete anos, Lula atravessou 13 dias de estrada num pau de arara, fugindo dos efeitos da seca. Ainda não existia o programa Um Milhão de Cisternas, que ganhou escala em seu governo.

Foi engraxate e vendedor ambulante. Sem ProUni nem cotas, Lula estudou até a 5ª série. Só muito depois receberia numerosos títulos honoris causa.

Aos 19, perdeu o dedo mínimo numa prensa. Aos 25, perdeu a mulher, Maria de Lourdes, e o filho que ela esperava, num país sem SUS.

O sindicato foi sua escola e a greve sua resposta à ditadura. O menino cujo pai partiu registrou, em 1982, o apelido em cartório para usá-lo na urna. Lula fez seu nome próprio, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores em 1980 e foi eleito o deputado federal mais votado do país.

Perdeu três eleições antes de se tornar o primeiro operário a governar o Brasil, com mais de 80% de aprovação. Depois viriam o câncer, a morte da segunda esposa, Marisa, os 580 dias de cárcere e a consequente anulação das condenações pelo Supremo. Agora, aos 80 anos, conquista um quarto mandato, feito inédito, com a virada da desvantagem do primeiro turno. Enfrentou a pressão norte-americana, a Meta, o jogo sujo do TSE e a deslealdade dos adversários.

A trajetória de Lula não prova que qualquer um chega lá bastando dormir tarde e acordar cedo. Isso é usar a exceção para confirmar a regra. Para cada menino que sobreviveu à fome, à baixa escolaridade, ao acidente de trabalho sem assistência, quantos milhões ficam pelo caminho?

Os programas que lhe faltaram não faltavam por acaso: sua ausência revela o modo como o país decide quem merece o quê. Para alguns são "migalha", "farelo". A meritocracia não dispensa a política pública; ela tentar esconder sua importância.

Não se trata de santificar ninguém. Lula foi visto abraçado com o diabo mais de uma vez, devendo ser cobrado como qualquer governante. Idealizar é só outra forma de alienação. O elogio aqui não é ao homem sem falhas, mas ao seu percurso excepcional, com repercussões mundiais em prol da democracia.

A vitória não é só dele. É de quem foi às urnas num país que há pouco precisou defender suas instituições de um golpe. É de quem mudou o próprio voto ou de outros em três semanas.

Aos vencedores, o mérito. O resto é demérito.