A cena, a meu ver, extremamente grave, foi mais ou menos assim. Os espectadores surdos se retiraram de um teatro, em Porto Alegre (RS), após o ator Marco Nanini, 78, ter se incomodado com uma questão relativa à presença da intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais) no palco, pois a sombra dela afetaria a interpretação.

A equipe de tradução deixou o local, provavelmente muito constrangida, e quem precisava desse mecanismo de acessibilidade para entender o espetáculo foi anulado, convidado informalmente para se virar, realidade cotidiana para pessoas com deficiência. Nem todos da plateia concordaram e vaiaram o ato, o que é um alento ao diverso.

Não há outra interpretação desse fato que não o puro suco do capacitismo. Optou-se pelo público ouvinte como quem de direito para seguir assistindo ao espetáculo. Pessoas com deficiência auditiva que se acomodassem à maioria.

À medida que se aumenta a pressão social pelo legítimo direito da garantia de acessibilidade comunicacional em todo lugar e para todos, descortina-se a maneira como se entendem os grupos minorizados. Vale lembrar que, de forma geral, espetáculos têm apoios de leis de incentivo –é o caso da peça de Nanini— e elas impõem que todos os públicos consigam ter acesso ao conteúdo apoiado.

A produção se desculpou, assumiu o erro. As pessoas com deficiência seguem do lado de fora, seguem impedidas de entender, de curtir, de contemplar, de se emocionar, de vivenciar. A arte que exclui.

Mas a arte é potente. A arte salva. Fiquei impressionado com o movimento inclusivo realizado pela série americana "Fúria", disponível no Disney Plus. Assistia despretensiosamente, embora a tensão esteja sempre presente na trama, quando surge na tela o personagem Alden Drummings, realizado pelo ator Steve Way, que tem grau avançado de uma condição genética chamada distrofia muscular.

Alden/Steve tem o corpo extremamente atrofiado e com movimentos muito limitados. Usa um aparelho para otimizar sua respiração e uma cadeira de rodas motorizada. É suscetível até a um vento mais forte.

Nada disso, porém, está explorado ou dito nos capítulos. É o talento de Steve o que sobressai em sua atuação cínica, em momentos de romance, de espanto, de medo e de esperteza. Uma boa produção, um bom roteiro reconhecem talentos e ultrapassam condições físicas, sensoriais e intelectuais para fazer brilhar o que importa, o valor artístico. Uma aula de como o palco pode e deve ser plural.

Ver uma diferença de fora, sem um mergulho mínimo de preocupação com o outro, pode levar a considerar um intérprete de Libras um estorvo no palco e um ator com condição física de extrema debilidade uma alegoria, uma bondade cinematográfica.

Ver de dentro e entender a essência é dar-se ao trabalho de "serumano". Libras é fundamental para que uma mensagem seja entendida, que a experiência seja vivenciada em plenitude, assim como podem ser as legendas, a audiodescrição. Contemplar, sem juízos apressados, aparências e corpos é respeitar outras possibilidades que não as comuns, as dominantes, as esperadas.

Na dinâmica do teatro, vários aparecem juntos no momento final. Todos recebem juntos o afago ou a vaia do público. Mas é preciso que ninguém tenha sido obrigado a deixar a plateia antes disso. É assim que o espetáculo deve continuar.