Logo do lado de fora da academia de artes marciais de Thiago Braga, no Rio de Janeiro, uma barricada operada por uma facção do tráfico controla quem passa pela rua.
Vestidos com camisas da seleção brasileira, os três jovens que ocupam o bloqueio aparentam ter, no máximo, 16 ou 17 anos. As alças dos fuzis automáticos de uso militar pendurados em seus ombros são tão compridas que as armas ficam abaixo da cintura.
"Até poucos anos atrás, era possível andar livremente por esta rua, mas agora há três barricadas ao longo dela", diz Braga, que mora na Penha, um complexo de mais de uma dezena de favelas na zona norte da cidade. "Se os garotos da barricada são mortos, outros ocupam o lugar deles. É um processo sem fim –e o Estado está, em grande parte, ausente."
A Penha é um dos lugares que ajudam a explicar por que a direita radical é favorita para voltar ao poder no Brasil após vencer uma série de eleições recentes na América Latina.
Se a imigração foi o tema que impulsionou uma forte guinada à direita nos Estados Unidos e na Europa, em grande parte da América Latina foi a demanda dos eleitores por enfrentamento aos grupos armados que se tornaram parte da vida cotidiana.
No Rio, as facções do tráfico se expandiram continuamente desde que começaram a controlar algumas favelas nos anos 1980, à medida que o Brasil passou a desempenhar papel mais importante no comércio mundial de cocaína. A Penha é uma das bases do Comando Vermelho, o maior grupo armado do Rio.
Uma pesquisa do Instituto Fogo Cruzado e da Universidade Federal Fluminense aponta que 31% do território da cidade do Rio de Janeiro está atualmente sob controle direto ou influência de grupos armados. Essas áreas abrigam mais de 40% da população, quase 3 milhões de pessoas. Desde 2008 –período em que o Rio sediou a final da Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos–, o território desses grupos mais que dobrou.
Do Rio, o problema ganhou dimensão nacional. O Comando Vermelho está presente em 26 das 27 unidades da Federação, de acordo com o Ministério da Justiça. O PCC (Primeiro Comando da Capital), maior facção de São Paulo, também está em 26. Pesquisadores acreditam que ambas têm hoje mais integrantes que os mais conhecidos cartéis da Colômbia e do México. Os Estados Unidos classificaram as duas como organizações terroristas estrangeiras.
Os grupos armados se tornaram tão poderosos que estão começando a penetrar na política. Em março, Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio), foi preso e aguarda julgamento sob acusação de atuar em favor do Comando Vermelho.
"É esse fenômeno que está me tirando o sono", diz Robert Muggah, especialista em segurança do Instituto Igarapé, no Rio. "Temos uma situação em que redes criminosas estão se infiltrando nos órgãos políticos do Estado. [...] O crime organizado está se espalhando como uma metástase do Rio e de São Paulo para o restante do Brasil, o que é algo fundamentalmente novo."
A percepção de que as autoridades brasileiras foram negligentes no enfrentamento aos grupos armados foi uma das principais razões para o surgimento de um movimento populista de direita. Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, está em posição de vantagem para vencer a eleição presidencial de 25 de outubro após terminar o primeiro turno na liderança.
Bolsonaro, natural do Rio, promete operações policiais mais agressivas e megapenitenciárias para integrantes de facções. Críticos, porém, dizem que é exatamente isso que o Brasil vem fazendo há três décadas. O Rio já tem uma das maiores taxas de mortes provocadas pela polícia no mundo.
No ano passado, a polícia fez uma operação na Penha e no Alemão, complexo de favelas vizinho, e matou mais de 120 pessoas ao tentar prender líderes de facções –a operação mais letal da história brasileira. Muitos corpos foram deixados em um terreno no morro atrás da academia de Braga, na Penha. Mas a ação não conseguiu retirar o Comando Vermelho das favelas.
Carolina Christoph Grillo, professora da Universidade Federal Fluminense, afirma que a ascensão dos grupos armados vem "se desenvolvendo lentamente há décadas e poderia ter sido interrompida se políticas mais eficazes tivessem sido adotadas".
Mas acrescenta que, se Bolsonaro vencer, "vamos dobrar a aposta em algo que sabemos que não funciona e que, na verdade, agrava o problema".
Poucos lugares da América Latina apresentam a mesma escala, diversidade e ousadia na atuação de grupos criminosos que o Rio de Janeiro.
O Comando Vermelho é a maior de três facções do tráfico com forte presença, principalmente nas zonas leste e norte da cidade. A zona oeste, por sua vez, é dominada pelas chamadas milícias: grupos fundados por ex-policiais inicialmente para expulsar facções dos bairros, mas que passaram primeiro à exploração de esquemas de extorsão e depois ao tráfico de drogas.
Nas áreas que dominam, esses grupos armados controlam muitos aspectos da vida. Além de decidir quem pode entrar, frequentemente tratam com brutalidade crimes como a violência sexual.
Também podem impor regras mais cotidianas, como proibir motocicletas barulhentas ou motoristas de empinar motos em ruas movimentadas. Em determinado momento, na Penha, o Comando Vermelho proibiu o uso de camisas do Chelsea porque o nome do patrocinador do clube na época –a empresa de telecomunicações Three– remetia a uma facção rival do Rio, o Terceiro Comando Puro.
Há algumas escolas e unidades de saúde nessas áreas, mas pouca presença policial além de incursões ocasionais de caráter militar. Fora as facções, a estrutura institucional é sustentada, em grande parte, por ONGs pontuais e igrejas evangélicas.
"Se você deixa um vazio, alguém vai preenchê-lo. Em favelas como esta, isso significa o crime", diz Rafaela França, que dirige uma ONG no Alemão.
O grau de controle exercido pelas facções do Rio costumava ser considerado singular, resultado da geografia peculiar da cidade, onde muitas favelas foram construídas em morros íngremes com acesso limitado.
Mas, na última década, o modelo carioca se espalhou pelo país. O Comando Vermelho tem forte presença na Amazônia e no Nordeste. O jornal O Globo informou que a facção tem tantos grupos afiliados que criou o que a polícia descreveu como um "diretor de governança corporativa para conflitos regionais".
A taxa de homicídios no Brasil, impulsionada em parte pela violência entre facções, caiu na última década. Entretanto, dados publicados no ano passado pelo instituto de pesquisa Latinobarómetro mostraram que 26% dos brasileiros estão sujeitos à "governança criminal", vivendo em áreas onde as regras são impostas por um grupo armado –o maior percentual da América Latina.
Em Fortaleza, capital do Ceará, as iniciais do Comando Vermelho pichadas nos muros são uma visão comum. Em meio à violência entre facções, centenas de moradores foram expulsos de casa.
Sonia, uma avó de 48 anos, conta que seu filho se envolveu com o grupo, mas depois tentou sair. Certa noite, ele e a mulher foram assassinados diante dos filhos. A facção então ameaçou matá-la caso não transferisse a propriedade de sua casa.
"De uma hora para outra, minha vida virou um pesadelo", diz. "Eu me senti desamparada pela polícia. Se tentasse recuperar minha casa, eles viriam atrás de mim e me matariam."
Muitos moradores de áreas controladas por grupos armados descrevem o estigma associado a viver nesses locais. Muller Magela se formou em gestão de sistemas, mas trabalha como porteiro na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio. O trajeto de ônibus desde sua casa na Penha leva 90 minutos em cada sentido.
"Quando você se candidata a um emprego, há muito preconceito contra quem vem de uma favela como esta", diz.
"A única vez em que vejo meu bairro na televisão é quando há uma grande operação policial", afirma o jovem de 24 anos, que também dá aulas de informática para jovens. "Eu só queria que pudéssemos mostrar que fazemos coisas boas na nossa comunidade."
O medo e a revolta diante do crime organizado influenciaram eleições recentes em toda a América Latina. Bolsonaro espera que isso também ocorra no Brasil.
O Rio foi um dos principais motivos para o desempenho surpreendentemente forte de Bolsonaro no primeiro turno. Ele recebeu 53% dos votos no estado, contra 39% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O candidato defende propostas que se mostraram atraentes em outros países, incluindo presídios de segurança máxima para integrantes de facções nos moldes dos construídos por Nayib Bukele em El Salvador, além de castração química para autores de crimes sexuais.
Moradores das cidades afetadas frequentemente apoiam uma resposta linha-dura. Uma pesquisa realizada pouco depois da violenta operação policial na Penha e no Alemão apontou que 62% dos moradores do Rio apoiavam a ação. Entre moradores de favelas, o percentual era de 88%.
Bolsonaro também propôs cooperação mais próxima com o governo Donald Trump, que deseja uma resposta de caráter mais militar à expansão dos cartéis na região.
Para Lula, as pesquisas mostram que a segurança é um de seus temas mais frágeis. Para frustração de muitos brasileiros pobres, uma parcela da esquerda há muito minimiza a necessidade de enfrentar grupos armados, sob o argumento de que a redução da pobreza é a melhor forma de resolver a violência urbana. No ano passado, Lula afirmou que traficantes também são "vítimas" do comércio de cocaína, antes de se desculpar.
Durante seu mandato atual, porém, o governo federal iniciou uma série de investigações sobre lavagem de dinheiro por facções do tráfico. Nos últimos dias, Lula adotou um novo lema na campanha: "Proteção para os trabalhadores, prisão para os criminosos."
Os planos de Bolsonaro podem ter apelo popular, mas não foram bem recebidos por muitos especialistas que estudam a violência no Brasil. Eles destacam que tanto o Comando Vermelho quanto o PCC foram fundados dentro de prisões e, desde então, usam o sistema para recrutar integrantes e construir redes nacionais.
"Colocar mais pessoas na prisão não vai resolver o problema e pode tornar essas organizações mais fortes", diz Benjamin Lessing, da Universidade de Chicago.
A polícia do Rio atua em um ambiente excepcionalmente violento, mas tem um longo histórico de elevada letalidade. Um estudo mostrou que, entre 2015 e 2024, policiais mataram 11.550 pessoas no estado, mais de três por dia. Em 2025, o número na região metropolitana foi de 460. Como comparação, nos últimos anos, o Departamento de Polícia de Nova York matou aproximadamente dez pessoas por ano. Apesar do derramamento de sangue, os grupos armados continuaram a se expandir.
Para Bolsonaro, o tema é complicado por seu longo histórico de relações pessoais com pessoas ligadas às milícias da zona oeste do Rio.
Em 2005, quando era deputado estadual, ele indicou Adriano da Nóbrega para receber uma medalha, em um momento em que o ex-policial estava preso e aguardava julgamento por homicídio. Nóbrega foi posteriormente acusado de ser um dos líderes de uma milícia e de chefiar um grupo de matadores de aluguel. Bolsonaro também empregou em seu gabinete a mulher e a mãe de Nóbrega, morto pela polícia em um confronto em 2020.
Bolsonaro sempre negou enfaticamente qualquer ligação com as milícias. Suas relações passadas, porém, serão examinadas com rigor se ele se tornar presidente, pois operações contra facções do tráfico provocarão questionamentos sobre por que as milícias também não são alvo.
Para quem vencer, uma campanha contra os cartéis será ainda mais complicada pelos indícios de infiltração na política —especialmente no Rio.
Em setembro do ano passado, TH Joias, deputado estadual, foi preso pela Polícia Federal, que o acusou de atuar em benefício do Comando Vermelho, inclusive comprando armas e equipamentos antidrones para a facção.
Sua prisão desencadeou uma sequência de acontecimentos. A polícia prendeu Rodrigo Bacellar, então presidente da Assembleia Legislativa do Rio, acusado de avisar TH Joias sobre sua prisão iminente. Um juiz que assinou a ordem também foi pres


