Um homem pode contar a história de várias cidades, mas poucas cidades podem contar a história de um homem.
Até os anos 1970, o antigo estádio do Avaí ocupava um espaço de 15 mil metros quadrados no centro de Florianópolis. Cercado pela cidade que crescia, o Adolfo Konder já não tinha espaço para se expandir. David Ferreira Lima viu naquele limite uma saída: trocar o terreno por uma área oito vezes maior, no sul da ilha, e construir ali uma nova casa para o Leão.
Arquiteto e dirigente avaiano, ele sugeriu a permuta ao grupo Kobrasol e assinou o projeto inicial da Ressacada. A mudança mobilizou uma comissão de obras e levou alguns anos para sair do papel. Quando o campo abriu as portas, em 15 de novembro de 1983, o mandante perdeu o amistoso de inauguração para o Vasco por 6 a 1. O placar ficou como curiosidade. A arena tornou-se parte da vida da cidade.
David já conhecia o trabalho de transformar um terreno em lugar de encontro. Formado em arquitetura em 1965, ele rodou pelo país e voltou a Florianópolis a convite do pai, João David Ferreira Lima, primeiro reitor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). L
á, ajudou a organizar o primeiro escritório responsável pelos projetos e pelas obras do campus. Segundo a instituição, tudo começou num prédio pequeno, com poucos profissionais, alguns móveis e dois desenhistas.
À medida que a antiga fazenda se tornava universidade, David dirigiu o setor de obras. Em 1974, projetou, com Luiz Felipe Gama d’Eça, a Biblioteca Universitária Central, pensada para ser construída em etapas. A primeira ala abriu em 1976. Anos depois, ele voltaria a trabalhar em uma ampliação do edifício.
Em 1977, quando a UFSC criou o curso de arquitetura e urbanismo, David passou a ensinar. A sala de aula se somou a uma carreira que já tinha mais de uma década dentro da instituição. Fora dela, participou do projeto do campus da Univali (Universidade do Vale do Itajaí) e de iniciativas de preservação do patrimônio de Florianópolis.
O vínculo com o Avaí também não terminou na inauguração da Ressacada. Em 2008, o clube apresentou uma maquete de ampliação do complexo esportivo projetada por ele.
Em 2014, David recebeu a Medalha Saul Oliveira, a maior honraria do clube. Diante da família e dos dirigentes, emocionou-se ao lembrar a convivência com o time e as dificuldades enfrentadas. Disse que um filme passava por sua cabeça.
David Ferreira Lima morreu em 24 de setembro, aos 88 anos, deixando por Florianópolis pedaços da sua própria história em lugares pelos quais passaram e passarão gerações.

