Um diagnóstico de câncer na família fez a jovem Ada Jamile Gomes de Oliveira procurar na ciência uma maneira de ajudar. Aos 15 anos, a estudante de Manaus criou um algoritmo voltado à pesquisa de compostos para proteínas. Hoje, aos 18, após ser a primeira amazonense premiada na Isef (Feira Internacional de Ciências e Engenharia, sigla em português), ela começa uma nova fase na Universidade Columbia, uma das mais prestigiosas dos Estados Unidos.

A curiosidade pela ciência começou cedo, apoiada pela mãe, Khetlem, que costumava pedir que a filha explicasse o conteúdo das aulas. Aos 14, na primeira feira de ciências, Ada viu na pesquisa um caminho para transformar perguntas em projetos.

No ensino médio do Colégio Militar de Manaus, a biologia encontrou a computação por meio do professor Roberto Barbosa, que sugeriu que ela aprendesse Python, uma linguagem de programação. "Foi um momento mágico, como se um novo mundo tivesse se aberto para mim. Eu descobri um pouco do quanto dava para fazer computacionalmente nessa área", conta.

No entanto, foi no primeiro ano do ensino médio que a ciência ganhou um sentido pessoal. A tia de Ada, Francisca, recebeu o diagnóstico de câncer de mama.

"Eu me sentia extremamente impotente, e a pesquisa me mostrou uma forma de ser útil enquanto apoiava minha família. A pesquisa científica me trouxe um sentido de como cuidar melhor de quem eu amo", afirma a estudante.

A partir desse sentimento, Ada começou um projeto sobre câncer de mama e, com amigas, desenvolveu o Minerva. Uma das ferramentas do projeto foi um algoritmo de busca "proteína-composto", desenvolvido aos 15 anos e registrado no Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Intelectual).

O professor Roberto integrava uma equipe ligada à UCSD (Universidade da Califórnia em San Diego), e o algoritmo virou referência para outra ferramenta dos pesquisadores. "Essa experiência mudou bastante minha forma de enxergar a ciência e a tecnologia, porque me mostrou que projetos desenvolvidos ainda no ensino médio podem influenciar o trabalho de outros pesquisadores."

A pesquisa sobre o câncer abriu caminho para outro projeto, voltado ao Alzheimer. Ada investigou ondas binaurais como alternativa terapêutica não invasiva a partir de 12 Hz, frequência observada durante o sono profundo.

"Não conseguimos comprovar o mesmo efeito, mas encontramos algo ainda mais interessante: os genes responderam especificamente a esse ruído, reduzindo sua expressão gênica", conta.

Primeira amazonense premiada na Isef, Ada passou a enxergar o reconhecimento como oportunidade para ampliar a visibilidade da pesquisa produzida na região Norte do país. "A Amazônia e Manaus certamente influenciam como interpreto esses problemas. A logística na região, por exemplo, é muito particular, então, quando penso em soluções tecnológicas, sempre levo isso em conta."

A estudante inicia em Nova York a graduação em biologia computacional. "Minha expectativa é aproveitar a liberdade para ser interdisciplinar e explorar, nessas áreas, perguntas não óbvias", conta ela sobre a nova fase na universidade americana.

A preparação para essa etapa contou com o apoio da Fundação Estudar, que Ada conheceu no oitavo ano, por meio de uma estudante de sua escola que participava do Prep Program.

A fundação está com inscrições abertas para a turma de 2027. A iniciativa é gratuita para estudantes brasileiros do penúltimo e último ano do ensino médio que desejam cursar graduação nas melhores universidades do mundo. As inscrições vão até quinta-feira (1º) no site da instituição.

O programa atende jovens com domínio do inglês, alto desempenho acadêmico e atividades extracurriculares que ainda não tenham ingressado em uma universidade. Todos podem participar, com bolsas para candidatura quando há necessidade financeira.

A nova etapa traz também um desafio pessoal. Após períodos de cansaço extremo, Ada passou a dar mais espaço à vida fora da pesquisa.

"Por muito tempo, foi difícil nutrir a Ada que existe além da pesquisa. Hoje, tenho muito orgulho não só do que faço, mas também da pessoa que venho me tornando. A parte mais difícil foi entender que eu não sou só quem eu sou no meio acadêmico", diz.