Em 104 anos de vida, Milton Soldani Afonso enfrentou a miséria durante a infância, lutou para estudar e usou o seu dom para os negócios para se tornar um empresário de sucesso nas áreas de direito, educação, comunicação e saúde. Tudo isso, tendo como base sua religiosidade.
Nascido em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte (MG), em 12 de dezembro de 1921, Milton era filho de José Afonso Filho e Genebra Soldani. Sua mãe engravidou 11 vezes, mas somente três filhos sobreviveram.
Ele cresceu em uma casa sem água encanada nem instalações sanitárias e só foi registrado aos 13 anos de idade. Para ajudar no orçamento da casa, saía às ruas após a escola para vender pés-de-moleque e cocadas que a mãe fazia em paralelo ao trabalho como costureira.
Aos 13 anos, já frequentador da Igreja Adventista do Sétimo Dia, ele se mudou para São Paulo, onde começou a estudar no Colégio Adventista Brasileiro, atual Unasp 1, em Capão Redondo.
Como não tinha dinheiro, ele começou a vender livros da instituição para custear seus estudos, o que moldou seu dom como vendedor.
Em 1943, ele entrou na faculdade de direito em São Paulo e se tornou líder estudantil. Por participar de um protesto contra a ditadura de Getúlio Vargas, foi detido pelo Dops (Departamento de Ordem Política e Social). Torturado por uma noite, ele ficou 15 dias preso.
Ao ser libertado, mudou-se para o Rio de Janeiro. Na cidade, apaixonou-se à primeira vista por Arlete da Silva, ao vê-la em um bonde. Eles se casaram em 1947 e tiveram quatro filhos: Celso, Carlos, Neide e Paulo.
No início dos anos 1950, Milton se formou em direito pela Faculdade de Niterói. Em 1951, criou a Casa Editora de Legislação e fundou a revista Legislação Federal, que se tornou referência na área de imposto de renda no país. Nos anos seguintes, também gerenciou sorveterias, granjas e atuou no setor bancário.
Em 1971, aos 49 anos, deixou o emprego no conselho do Hospital Adventista Silvestre, no Rio, e abriu a Golden Cross, uma instituição filantrópica cujo lucro era direcionado a projetos educacionais, de assistência social e evangelização.
A empresa teve um crescimento vertiginoso e, em 1984, tornou-se a maior companhia de saúde na América do Sul e a quarta maior no mundo. Milton a gerenciou até os anos 1990, quando entregou a companhia a gestores profissionais.
Em 1985, ele entrou de vez no universo educacional ao assumir a administração da Osec (Organização Santamarense de Educação e Cultura), que virou Unisa (Universidade de Santo Amaro) em 1994.
A partir de então, ele ampliou o programa de bolsas em instituições adventistas, para ajudar aqueles que, como ele, não tinham condições de pagar os estudos. Dezenas de milhares de estudantes tiveram mensalidades custeadas total ou parcialmente.
Também sustentou lares substitutos e orfanatos, além de bancar obras em colégios e internatos, e a construção de igrejas em diferentes estados.
Em 1997, ele começou a investir em mídia ligada à Igreja Adventista. Naquele ano, doou um terreno à igreja em Jacareí, no interior paulista, para montar um centro de mídia. Nos anos seguintes, comprou 25 estações de rádio no país e 68 ao redor do mundo para transmitir a mensagem da Bíblia.
A iniciativa deu origem à Rede Novo Tempo de Comunicação, hoje com conteúdo para TV, rádio e internet em português e espanhol 24 horas por dia.
Milton Soldani Afonso estava internado na UTI do Hospital Samaritano, no Rio, e morreu no dia 2 de setembro, aos 104 anos, de causas naturais. Ele deixa os filhos Celso, Carlos, Neide e Paulo César, 14 netos e 4 bisnetos.
