O Ministério Público instaurou nesta semana uma apuração sobre o projeto de implantação da linha 20-rosa, do Metrô, que deve ligar a zona oeste de São Paulo ao ABC Paulista. O chamado "procedimento preparatório de inquérito civil" está em fase inicial e sob sigilo.

A estatal disse à reportagem ter enviado esclarecimentos, que está tranquila com a situação e que o traçado preliminar é o que tem maior viabilidade.

Apresentado em 2023, o trajeto da linha tem recebido oposição de parte das associações de bairro. O principal ponto criticado é a escolha de percurso que corta parte de Pinheiros e dos Jardins em detrimento de maior número de estações na avenida Brigadeiro Faria Lima, na zona oeste.

O movimento é liderado pela Ame Jardins e por outras organizações. O argumento é que a opção de trajeto pela Faria Lima atenderia maior volume de passageiros, com cinco em vez de duas estações na avenida.

O grupo contratou um estudo da consultoria de Sergio Avelleda, ex-presidente do Metrô, a fim de rebater o material apresentado pela companhia. Ele já havia feito outro levantamento sobre o tema há cerca de dois anos.

Com a publicação da maioria das declarações de utilidade pública necessárias em 2025, proprietários de imóveis em áreas indicadas para futura desapropriação têm sido notificados desde o começo do ano.

À Folha a Ame Jardins disse que a mobilização não é uma resposta a esse processo. A expansão da estação Fradique Coutinho resultará na desapropriação de cerca de 7,5 mil m² na área tombada do bairro Jardim Paulistano.

O projeto básico da linha será entregue no primeiro trimestre de 2027, de acordo com o Metrô, abrindo caminho para contratação das obras de implantação. A última estimativa divulgada foi de 1,2 milhão de passageiros por dia.

Afinal, o que será desapropriado nos Jardins?

A desapropriação nos Jardins consiste em dois trechos. O maior é o da expansão da estação Fradique Coutinho, com acesso pela avenida Rebouças —na área onde ocorre movimento de "extensão" do eixo corporativo da Faria Lima, com prédios em obras e recém-entregues. Há, ainda, a previsão de um poço VSE (Ventilação e Saída de Emergência) na alameda Gabriel Monteiro da Silva.

Inicialmente, o projeto tinha dois poços de ventilação na área tombada dos Jardins, porém houve remanejamento em 2024, reduzindo-os a um ponto e em trecho comercial (não mais no miolo do bairro). A decisão ocorreu após indicação de órgãos de patrimônio, que também destacaram que a ampliação da estação Fradique Coutinho deverá considerar a "ambiência e paisagem do bairro".

Hoje, esses trechos são de imóveis baixos. Esse padrão decorre das restrições impostas pelo tombamento dos Jardins e pela Lei de Zoneamento.

O que diz o Metrô?

Gerente de Planejamento do Metrô, o arquiteto e urbanista Luiz Antonio Cortez Ferreira explica que o grande volume de lançamentos imobiliários inviabilizou mais paradas na Faria Lima. Isso também motivou a indicação de desapropriações na parte tombada da Rebouças (do lado dos Jardins), visto que havia empreendimento registrado no lado da avenida onde são permitidos prédios (em Pinheiros).

Ele afirma que a demanda de passageiros identificada está especialmente ligada à conexão com o corredor de ônibus da Rebouças. Também defende que esse trecho do traçado está bastante consolidado.

"Não tem impacto verdadeiro importante dentro dos Jardins", argumenta. "Mesmo que ocorra abertura de inquérito [no Ministério Público], não tem nada que nos preocupe", completa.

Segundo Cortez, os moradores do entorno não sentirão impactos durante a operação da futura linha. "Passa a 40 metros de profundidade, praticamente dentro da rocha", disse, além de apontar intervenções feitas para evitar vibração.

O estudo de impacto ambiental de 2023, encomendado pelo Metrô, já indicava desapropriações na Rebouças e na Sampaio Vidal. No material, admite-se que o traçado adotado "deixa de atender o trecho de maior concentração de empregos da avenida Faria Lima, alterando uma das principais funcionalidades previstas para a linha".

E o que diz a Ame Jardins?

Os grupos defendem a retomada de um dos trajetos estudados anos atrás, com cinco estações da linha na Faria Lima. Com isso, o percurso seguiria pela avenida, sem passar pelos Jardins.

A opção escolhida tem duas estações na Faria Lima, além de outras em Pinheiros e na Vila Madalena, Com isso, a nova linha terá que passar pelos Jardins para conectar esses locais.

Presidente da Ame Jardins, Fred Affonso Ferreira diz que a mobilização é por um "projeto de cidade", a fim de que a linha atenda a mais pessoas.

Ele chama o atual trajeto de um "contrassenso" ao interesse coletivo. A defesa é para que a estação Faria Lima (no largo da Batata) conecte a linha 20-rosa a outras, em vez da Fradique Coutinho.

O trajeto não deve passar pelo local, contudo, com paradas na Faria Lima apenas em trechos perto do parque do Povo e da avenida Hélio Pellegrino.

Segundo Ferreira, não se trata de defesa de interesse de moradores dos Jardins. "O nosso foco não é desapropriação, o nosso foco é o metrô no lugar certo."

O trajeto da linha 20-rosa também tem oposição de uma parte dos moradores da Vila Madalena e de Pinheiros, especialmente pelo potencial de impulsionar a verticalização crescente nesse entorno —a legislação da cidade permite a construção de prédios mais altos nos arredores de estações.

Uma carta pública contra a criação de uma estação na rua Girassol foi apresentada no Conselho Participativo Municipal de Pinheiros no ano passado.

Linha terá 32 quilômetros

A linha deve ligar o distrito Lapa, na zona oeste paulistana, até Santo André, no ABC, com 32 quilômetros de extensão e 24 estações. O traçado abrange também distritos da zona sul, como Saúde e Cursino, e São Bernardo do Campo.

O Metrô estima que serão necessários oito anos de obras. A licença ambiental prévia foi obtida em 2024.