Durante a ditadura operaram no Brasil, segundo um antigo relatório da CNV (Comissão Nacional da Verdade), ao menos 17 centros clandestinos de repressão e tortura chamados de casas da morte. Era um jogo sujo das Forças Armadas e da polícia para combater opositores de uma maneira mais sigilosa e descentralizada do que em quartéis e delegacias. Os agentes do regime atuavam como milícias e praticavam ações que estavam fora do sistema de legalidade criado pelos próprios militares.

Dois desses centros, onde membros de grupos e partidos de esquerda eram interrogados e mortos, funcionavam em São Paulo: um no Ipiranga e outro em Parelheiros, dois bairros da zona sul. No Ipiranga, a casa tinha uma função especial. Segundo o relatório, ali tentava-se convencer presos a tornarem-se agentes infiltrados e informantes, ou "cachorros", e delatarem os opositores do regime. Era um centro de acolhimento para potenciais colaboradores da ditadura e ficava numa região urbanizada.

Em Parelheiros, na região da represa de Guarapiranga, funcionava o sítio 31 de Março, cedido para os militares pelo grileiro e empresário mineiro Joaquim Fagundes, dono de uma empresa de transportes na Mooca. Nesse local imperava a violência. O aparato repressivo era comandado diretamente pelo DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna).

A sede do sítio 31 de Março, nome dado em homenagem ao dia do Golpe de 1964, era uma casa térrea escondida no meio da mata no bairro de Emburá, localizada longe do centro e fora do alcance de olhares indesejados. Além de destiná-la para a prática da tortura, seu proprietário também promovia festas e churrascos para os quais convidava membros proeminentes das Forças Armadas e da polícia, como o cruel delegado Sérgio Paranhos Fleury. Joaquim, pelos serviços prestados ao regime militar, receberia duas condecorações do Exército.

Os assassinos que circulavam no sítio de Parelheiros se autodenominavam "Braço Clandestino da Repressão". Matava-se livremente. Os corpos frequentemente eram levados para a vala de Perus, outro símbolo da crueldade do regime. Pelo menos três militantes mortos no sítio foram identificados em Perus: Antônio Carlos Bicalho Lana, Sônia Maria de Moraes Angel Jones e Antônio Benetazzo, integrantes da ALN (Aliança Libertadora Nacional).

Não se sabe ao certo quantas pessoas morreram no sítio 31 de Março. Além dessas três, acredita-se que Joaquim Câmara Ferreira, sucessor de Carlos Marighella no comando da ALN, tenha sido torturado e assassinado no local. Houve apenas um militante que passou por ali e sobreviveu: o advogado e ex-deputado estadual (PSB-RJ), Afonso Celso Nogueira Monteiro, que pode relatar os horrores do lugar.

O sítio, assim como as outras casas da morte, funcionou como aparato repressivo entre 1970 e 1975, já no governo Ernesto Geisel, que falava em abertura política, mas fazia vista grossa para a violência. Havia centros de tortura em cidades como Petrópolis (RJ), Itapevi (SP), Marabá (PA), Belo Horizonte (MG), Recife (PE) e Brasília (DF).

Um traço em comum entre todos eles é terem o imóvel cedido por algum empresário privado interessado em estreitar laços com os militares. Os 17 endereços clandestinos da repressão eram sítios, fazendas, casas e apartamentos, que podiam ser usados sem limites pelos torturadores. Nesses lugares escabrosos, como o sítio 31 de Março, a ditadura atingiu extremos de crueldade.