Enquanto se prepara para disputar o segundo turno das eleições presidenciais, a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) discute indicações para o cargo de ministro da Educação em caso de vitória.
Ainda não há definição, mas, segundo técnicos da área e membros da base do candidato, dois nomes são os mais citados nos bastidores: Renato Feder, secretário estadual de Educação de São Paulo, e Leonardo Pascoal, secretário municipal de Educação de Porto Alegre.
A Folha tentou contato com a assessoria de Flávio para falar do tema nesta segunda (5), mas não houve resposta. Desde setembro, a campanha também deixou de responder a diversos questionamentos sobre quem seriam as pessoas responsáveis pela discussão de educação.
Feder já esteve perto do cargo. Em 2020, foi convidado por Jair Bolsonaro para assumir o MEC, mas a indicação não prosperou. À época, ele comandava a educação do Paraná, estado que passou do sétimo para o primeiro lugar no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) do ensino médio entre 2017 e 2021. Empresário e ex-presidente da fabricante de eletrônicos Multilaser, assumiu a rede paulista em 2023, no governo Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Em São Paulo, Feder fez da digitalização das aulas e do acompanhamento de resultados marcas de sua gestão. A aposta em plataformas foi criticada por professores e enfrentou problemas de infraestrutura. No Ideb de 2025, a rede estadual ficou em décimo lugar entre os estados no ensino médio regular, ante o oitavo em 2023. Feder disse à Folha que via um avanço consistente e atribuiu parte da dificuldade de comparação ao tamanho da rede paulista.
Em livro publicado em 2007, Feder defendeu a privatização do ensino público, começando pelas universidades. Ao assumir a secretaria do Paraná, afirmou que havia mudado de posição após estudar experiências desse modelo. A proposta de privatização não consta do programa de Flávio.
Pascoal, filiado ao PL, é economista e foi prefeito de Esteio, na região metropolitana de Porto Alegre, por dois mandatos. Assumiu a educação da capital gaúcha em 2025 e, neste ano, passou a presidir o Consec, conselho que reúne secretários de Educação das capitais.
Na gestão municipal de Sebastião Melo (MDB), apresenta como prioridades a alfabetização, o acompanhamento da aprendizagem e a ampliação de vagas em creches. Em artigo publicado na Folha, defendeu maior rigor na formação inicial de professores.
Pascoal foi consultado pela equipe responsável pela elaboração do programa de governo de Flávio e contribuiu com ideias.
Universidades federais temem cortes
O programa registrado por Flávio prevê tirar do MEC a governança do ensino superior, transferindo-a para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Também diz que Capes e CNPq, órgãos de financiamento de pesquisa, deverão dar prioridade à inovação, à transferência de tecnologia e à aplicação produtiva dos estudos.
O documento não estabelece metas de orçamento ou de expansão para as universidades federais. É nisso que se apoia uma preocupação, relatada à reportagem, de reitores, alunos e pesquisadores em relação a uma eventual vitória de Flávio. Eles afirmam temer um escanteamento do ensino superior federal para priorizar outras áreas. Ninguém quis ser identificado por receio de ataques ou boicote durante um possível governo do PL.
O receio de cortes se apoia, em parte, no histórico do governo Jair Bolsonaro. Levantamento do centro Sou_Ciência, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), mostrou que os repasses totais às federais caíram ano a ano de 2019 a 2022, que corresponde à gestão bolsonarista. No último ano do governo, somaram R$ 53,2 bilhões, em valores corrigidos pela inflação, o menor montante desde 2013.
A verba de assistência estudantil caiu cerca de 23% entre 2019 e 2022, segundo o mesmo estudo.
Também houve conflito em torno da escolha de dirigentes. Até julho de 2021, Bolsonaro havia deixado de nomear o candidato mais votado pela comunidade acadêmica em 40% das escolhas de reitores feitas em seu mandato, rompendo uma tradição seguida desde o fim dos anos 1990.
Essas decisões estimularam uma mudança na legislação: agora, as próprias universidades conduzem seu processo eleitoral.
A campanha de Flávio fala em reduzir despesas públicas e em criar uma nova regra fiscal, mas ainda não detalhou onde os cortes ocorreriam. O programa tampouco prevê expressamente reduzir a verba das universidades. Para as instituições, a questão em aberto é como seriam financiados ensino, pesquisa e assistência aos estudantes sob a estrutura proposta pelo candidato.
