Como seguidores de Jesus de Nazaré, um condenado à morte pelo Império Romano, tornaram-se defensores da pena capital sob o pretexto de promover a "cultura cristã"? Essa metamorfose do cristianismo é uma das mais inquietantes ironias da história contemporânea.
Essa contradição ganha contornos dramáticos no governo de Donald Trump com a aprovação da execução por fuzilamento do ex-major Nidal Hasan, responsável pelo massacre na base militar de Fort Hood. O caso atingiu um ápice do retrocesso civilizatório com o anúncio do secretário de Defesa, Pete Hegseth, de que o fuzilamento seria transmitido ao vivo pela internet.
A iniciativa de Hegseth reflete seus fortes vínculos com o cristianismo evangélico conservador norte-americano. O secretário de Defesa é conhecido pelo seu engajamento religioso, que vai da promoção de cultos dentro do Pentágono até a recente instalação do Gabinete de Assuntos Religiosos.
Sob o discurso de que a sociedade precisa testemunhar que comportamentos como o de Nidal possuem "consequências graves", Hegseth buscou converter a punição estatal em um ato de afirmação de força com tons de pregação religiosa.
Para entender como essa postura se tornou aceitável entre cristãos estadunidenses, a historiadora Kristin Kobes Du Mez, no livro "Jesus e John Wayne", analisa a transformação cultural do evangelicalismo nos Estados Unidos. Ao longo de décadas, a mensagem original de amor e compaixão foi gradualmente substituída pelo mito do "Cristo-guerreiro" agressivo e militante.
Nessa redefinição cultural, o evangelho foi cooptado por um nacionalismo hipermasculinizado que justifica a violência em nome da ordem. A fé deixou de espelhar a mansidão do crucificado para abraçar a lógica dos heróis de faroeste, legitimando a vingança contra aqueles rotulados como inimigos.
É nesse cenário que a crítica sociológica de Michel Foucault em "Vigiar e Punir" ilumina a gravidade da reedição do espetáculo penal. Ao analisar o suplício no Antigo Regime, Foucault explica que a execução pública dos condenados funcionava como uma encenação da justiça divina. Era como se a punição eterna já estivesse sendo cumprida na Terra e o suplício do condenado fosse uma espécie de "teatro do inferno".
A proposta de transmitir ao vivo o fuzilamento atuava precisamente como a reconstrução desse "teatro do inferno" em plena era digital. Esse recuo tático não anula a gravidade do projeto, apesar do recente anúncio do presidente Donald Trump na rede Truth Social de que a transmissão foi cancelada, cedendo à reação negativa de líderes religiosos, da opinião pública e de aliados republicanos como o vice-presidente J.D. Vance.
A mudança de decisão insere-se no padrão recorrente da administração de lançar propostas extremadas para demarcar território ideológico e, em seguida, recuar diante do custo político. Ao manter a execução por fuzilamento agendada para 3 de dezembro, a primeira no meio militar em mais de seis décadas, o regime preserva a substância do ritual arcaico.
A exibição da morte foi restringida às testemunhas presenciais por cálculo pragmático de contenção de danos, mas o desejo de converter o castigo em uma liturgia de intimidação soberana já expôs a cooptação da justiça pelo punitivismo.
Essa barbárie revela uma contradição geopolítica: ao adotar rituais punitivos, os EUA se aproximam de teocracias como Irã e Afeganistão, além da China, líderes em execuções.
É esse o pódio que a potência quer alcançar? Em vez de demonstrar liderança moral, o fuzilamento e a estetização do castigo desfiguram as bases do Estado de Direito e convertem a execução em propaganda de vingança.
A reativação, ainda que parcialmente contida no campo da difusão midiática, do espetáculo do "teatro do inferno" em plena era digital expõe não a força da democracia americana, mas a sua degradação autoritária, desmentindo, no próprio ato do fuzilamento mantido, a ética do homem de Nazaré em quem o regime afirma se inspirar.





