Foi como Hemingway descrevendo a falência em "O sol também se levanta": "Gradualmente e então de repente". No meu caso, porém, o título do livro seria "O sol também se põe": entrei num avião, indo pro Rio no feriado, olhei os passageiros e me dei conta de que, "de repente", todo mundo era mais novo.
Durante décadas ("gradualmente"), vivi num mundo como mais novo. Primeiro como criança, depois adolescente, depois jovem adulto. Pra onde eu olhava, a esmagadora maioria era mais velha. Os escritores, os motoristas dos ônibus, os parentes, os políticos, os garçons, os médicos, evidentemente. (Onde já se viu médico jovem? Bem, tenho visto por todo lado. É assustador. Entro num hospital e parece a minha escola quando tínhamos aula de química no laboratório.)
Não sou burro, só estou chocado. Entendo que não foram os outros que rejuvenesceram, eu que envelheci –constatação essa que tem implicações nada agradáveis. A primeira é que, aos 49 anos, provavelmente já esteja mais próximo da tumba do que do berço. (Espero, no entanto, que aquelas crianças de jaleco consigam provar-me o contrário).
A segunda constatação é que, frequentando um mundo dos mais jovens, já não entendo todos os códigos. Vejo garotas com sandálias cujas solas sintéticas parecem aqueles poodles podados, cheios de pompons. Vejo garotos de calças bufantes e fones de ouvido escandalosos. (Tudo na tecnologia diminui: por que os fones aumentam, ó, jovens?). Vejo as bandas e os músicos trazidos para os festivais e não conheço um(a) só. Na real, não conheço nem o festival pelo nome. Saudades de quando existia Rock’n Rio, Free Jazz e Hollywood Rock.
Devo admitir que durante o "gradualmente" teve uma piscadela do "de repente". Uma pista, um soluço do espaço-tempo em que poderia ter me dado conta de que algo estava acontecendo. Um dia entrou um cara no metrô e tive uma sensação estranha, como se ele tivesse dois narizes ou nenhuma orelha. Levei uns instantes pra entender do que se tratava: era um jovem careca. Pela maior parte da minha vida, juventude e calvície viviam em gavetas separadas no meu cérebro. Nunca haviam se misturado. Ver o calvo juvenil foi como ver um hipopótamo voando ou um bebê fumante. Tive que conciliar o inconciliável. Acho que amadurecer tem disso aí.
Na mesma viagem pro Rio, no apartamento da minha irmã, décimo segundo andar, tive uma experiência semelhante à do jovem careca: uma gaivota vista de cima. Por 49 anos, só as tinha visto lá de baixo, uma linda letra M, pequenininha e distante. A gaivota, vista do alto, é grande feito um albatroz e tem um rabão em V, como uma andorinha gigante. Hipopótamo voando, bebê fumante.
Chamei meus filhos e as primas, "corre aqui, venham ver, uma gaivota de cima!". As crianças vieram, viram e me olharam com curiosidade e desprezo. "Que que tem?!". "Vocês já tinham visto uma gaivota de cima?!". "Não, mas e daí?!", resmungaram e foram tratar de outros assuntos. (K-pop? Conversas no Snap-chat? Namoros -- não quero dar a impressão de que jovens são fúteis).
Poderia ser frustrante, mas foi consolador. Ao mesmo tempo, a constatação clichê de que, num momento "o sol também fica parado no meio-dia", eu ainda tinha surpresas. E a de que eles, que vêm depois de mim, também vão ter suas surpresas, cada um a seu tempo. Só espero que não vejam –nem eu, jamais– uma gaivota careca. Seria confusão mental demais pra seres humanos de qualquer idade.

