Uma investigação do Ministério Público apura se a empresa Estre Ambiental negociou propina para levar uma concessão de R$ 5,2 bilhões em Bauru, no interior de São Paulo, destinada ao manejo do lixo urbano. Seria a maior contratação da história da cidade.
O então CEO da Estre, Hamilton Agle, foi preso preventivamente (sem prazo) em setembro. Quatro secretários municipais também estão detidos, entre os quais o marido da prefeita Suéllen Rosim (PSD), Renato Purini, filho do ex-deputado estadual Roberto Purini, morto em 2023.
Os demais são Vitor João de Freitas Costa, Cilene Chabuh Bordezan e Sara Moura de Jesus. Nenhum deles tinha relação com Bauru antes de assumir o cargo. Morador do litoral paulista, Vitor é ex-presidente do porto de São Sebastião, e Cilene foi secretária de Planejamento em Sorocaba.
Eles são suspeitos de corrupção passiva e ativa, organização criminosa, fraude e outros crimes. Todos foram demitidos de seus respectivos cargos após a operação. Parte dos envolvidos foi denunciado e se tornou réu na Justiça.
A Folha questionou por mensagem, email e telefonemas a defesa dos quatro durante três dias, entre quarta e sexta (23). Emails foram reenviados nesta quinta-feira (29). A defesa de Sara disse que só se pronunciaria nos autos. Não houve resposta dos demais.
A Estre afirmou colaborar com a apuração, ter desligado o executivo e disse que não participará mais da licitação em questão.
A prefeitura anulou o edital após a operação, e a prefeita declarou confiar no esclarecimento dos fatos. Com relação ao marido, ela disse que "não lhe cabe antecipar conclusões sobre fatos sob apuração" e que "eventuais responsabilidades devem ser devidamente individualizadas".
O Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado) diz que os investigados fizeram da Prefeitura de Bauru "um palco de atuação da organização criminosa" e que nada disso seria possível sem o aval da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), entidade ligada à USP e responsável pela tabela de preços de veículos usados.
A Fipe foi contratada sem licitação para avaliar o modelo a ser seguido na concessão, mas segundo o Gaeco apenas chancelou um edital cujas regras haviam sido ditadas pelos próprios investigados.
As investigações apontam que o consultor da Fipe Mário Luiz Silvério teria cobrado R$ 540 mil para fraudar os estudos da concessão e direcioná-la à Estre. O valor seria pago à parte por meio de uma empresa dele.
Silvério está foragido. Sua defesa disse colaborar com as investigações, e a Fipe declarou tê-lo desligado de seus quadros e rescindido todos os contratos vinculados a ele. Não informou quais.
Cada suspeito tinha um papel específico no esquema, diz o Ministério Público.
Cilene teria sido nomeada na prefeitura apenas para direcionar a concessão à Estre. Ela operava sob o guarda-chuva de Vitor Costa, secretário de Negócios Jurídicos, cuja função seria dar aparência de legalidade à fraude.
Um dos diálogos obtidos pelo Gaeco é uma conversa entre Cilene e uma interlocutora na qual a secretária se queixa dos valores cobrados por agentes do governo a título de propina.
"Mano do céu, eu fico pensando que se a gente ganhasse 1% da porra toda estaríamos na Suíça", escreveu Cilene. "Eu queria tbm.. íamos pra Grécia (sic)", respondeu a colega.
O marido da prefeita, por sua vez, integraria o núcleo político. As investigações apontam para R$ 750 mil em propina para ele como contrapartida apenas à aprovação da concessão na Câmara. O Gaeco ainda apura o destino de outros pagamentos que somam ao menos R$ 3,2 milhões.
Nada teria sido pago de forma direta. Segundo o Gaeco, o intermediário de propina de Purini seria o advogado Marcos Libanore Caldeira, ex-juiz do Tribunal de Impostos e Taxas de São Paulo. Ele foi alvo de medidas restritivas e está sob tornozeleira eletrônica.
A reportagem não localizou sua defesa. As ligações para o telefone que seu advogado registrou na OAB não completam, e as petições que apresentou à Justiça não têm nenhum outro meio de contato.
O nome dele foi indicado ao CEO da Estre pelo próprio Purini, segundo mensagens obtidas pelo Ministério Público.
O executivo acionou Libanore no fim do ano passado. "Bom dia. Hamilton Agle amigo do Renato Purini. Qdo puder pf me retorne (sic)", escreveu. Ambos conversaram por um minuto e acertaram um encontro na sede da Estre na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. Não há detalhes sobre o teor da reunião.
Para o Gaeco, a escolha do advogado proporcionava "cobertura particularmente útil" porque o pagamento poderia ser justificado sob o manto de serviços jurídicos.
Promotores suspeitam que Purini pode ter se antecipado à operação.
Ele trocou de celular após a primeira fase da Cavalo de Troia e deixou sua casa de carro momentos antes de ser preso. Passou na prefeitura e na sede do Ministério Público e acabou detido numa avenida, algo que o Gaeco diz ser "compatível com atividades de contravigilância"
A operação contra Purini ocorre pouco mais de um ano após seu casamento com a prefeita. A cerimônia ocorreu em maio de 2025 na casa de eventos Covadonga, conhecida por receber eventos de luxo.
O convidado de honra foi o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. Ele disse à Folha que "todas as suspeitas devem ser rigorosamente apuradas pelas autoridades competentes, garantido o direito à ampla defesa e ao contraditório".
Não é a primeira vez em que investigações atingem a família de Suéllen, reeleita em primeiro turno em 2024 com 53,7% dos votos válidos.
O cunhado dela, Walmir Henrique Vitorelli Braga, foi indiciado pela PF (Polícia Federal) no ano passado sob a suspeita de contratar um hacker para coletar informações prejudiciais à vereadora Estela Almagro (PT) e ao jornalista Nelson Gonçalves, do portal Contraponto.
O caso está na Procuradoria Regional da República por possível envolvimento da prefeita, que tem foro privilegiado.
A defesa de Walmir afirmou que ele "jamais contratou qualquer atividade ilícita voltada a monitorar ou obter informações de quem quer que seja". Já a prefeita afirmou que "não lhe cabe comentar eventuais investigações ou questões envolvendo terceiros".
O município tem outros gargalos. O saneamento básico é o principal deles.
Bauru trata apenas 2,7% do esgoto que produz e tem os piores indicadores de São Paulo entre as cem cidades mais populosas do país segundo o Trata Brasil, que mede indicadores do setor a partir de dados do governo federal.
O município acaba de retomar a construção de uma estação de tratamento cujas obras começaram em 2015 na gestão Rodrigo Agostinho (PSB), ex-presidente do Ibama no governo Lula (PT). A estação até hoje não foi concluída.
Quem toca o projeto é uma concessionária que assumiu o setor de esgoto após vencer concorrência elaborada também pela Fipe sob a tutela de Mário Silvério.
O município afirmou que o processo passou pela análise dos órgãos competentes, e a Fipe disse ter feito uma revisão e que "até o momento não identificou impropriedades".



