Moradores de Muqui, no sul do Espírito Santo, dizem ter sido alvos de uma ação violenta da Polícia Militar durante comemoração da reeleição do presidente Lula (PT) na noite deste domingo (25).

Vídeos recebidos pela Folha mostram agentes da corporação fazendo uso de spray de pimenta, gás lacrimogêneo e balas de borracha contra apoiadores do petista que começavam a se reunir na rua Viêira Machado e na avenida Avides Fraga, no centro histórico da cidade.

Em pronunciamento nas redes sociais, o major Igor Barcelos Rody disse que o uso da força para a dispersão dos manifestantes foi legal, legítimo e proporcional. Ele comanda a 15ª Companhia Independente da PM, responsável pelo policiamento no município.

Eriton Berçaco, presidente do PSOL no município, disse que agentes da PM chegaram ao local junto ao grupo que se dirigia para a confraternização, por volta das 21h, após a confirmação da vitória de Lula. "Eles estavam com uma estrutura de tropa de choque, algo que não é comum por aqui", afirmou.

"Mal deu tempo de eu abraçar três pessoas e eles já estavam dando grito de ordem, mandando desocupar a rua e atirando", disse ele. "Foi uma cena de guerra numa cidade do interior, eu nunca vi isso aqui."

Berçaco disse que questionou a atitude dos policiais envolvidos, e foi atingido por um spray de pimenta. "Não teve diálogo. Eles já mandavam sair da frente, se não iam atirar."

Segundo ele, centenas de pessoas estavam comemorando no local, e pelo menos dez precisaram de atendimento médico em razão da ação da PM. Ele afirmou que um morador da cidade foi atingido por uma bala de borracha no supercílio e chegou a ser hospitalizado.

Em nota, a Polícia Militar do estado afirma que, num primeiro momento, adotou medidas preventivas e orientativas para a desocupação da avenida Avides Fraga, citando risco de acidentes e atropelamentos.

"Posteriormente, com o aumento da aglomeração, a obstrução total da via e o registro de hostilidades contra a equipe policial, a situação evoluiu para um cenário de maior risco", diz o comunicado.

A posição foi reforçada no pronunciamento do major Rody.

"Indivíduos infiltrados ali no meio dessa manifestação, que iniciou-se de forma pacífica, começaram a arremessar contra a guarnição policial pedras e garrafas de vidro", disse ele no comunicado. "Momento este que a guarnição utilizou-se do instrumento de menor potencial ofensivo, pra cessar aquela grave perturbação da ordem pública que se instalava."

A nota da PM diz que os suspeitos de atacar os policiais não foram identificados ou detidos, e que a ação da corporação visava "proteger a integridade física dos policiais e das demais pessoas presentes e restabelecer a ordem pública."

Conforme a declaração, a Corregedoria apurará a atuação policial. O comunicado não cita registro de feridos.

Berçaco classificou a nota da polícia como "mentirosa". Ele afirma que ouviu um barulho semelhante ao de uma garrafa quebrada, mas diz que isso ocorreu "quando a coisa já estava muito adiantada na postura da polícia, o que me pareceu uma reação de alguém diante da violência policial."

Em nota conjunta, os diretórios estaduais do PT e do PSOL no Espírito Santo manifestaram repúdio diante da ação da Polícia Militar, afirmando que os agentes agiram sem diálogo ou tentativa de mediação. Eles também negam que houve conflito iniciado pelos manifestantes.

"O que deveria ser uma celebração popular se transformou em uma experiência de medo e sofrimento", afirma a nota. "A força não pode ser utilizada como instrumento de intimidação contra cidadãos que exercem seu direito de manifestação e celebração democrática."

Muqui, uma cidade de 13.745 habitantes, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), deu vitória a Flávio Bolsonaro neste segundo turno. O candidato do PL conquistou 52,34% dos votos válidos na cidade, ante 47,66% do petista.