Não sou de fazer autopropaganda por aqui, até porque é proibido pelo manual da Folha, mas vou falar de um filme lindo que a minha irmã, Maria, fez. Chama-se "Por que não?". A pergunta é: se sabemos há décadas de todas as consequências do aquecimento global, já vivendo enchentes, secas, queimadas e alertas da Defesa Civil no bolso, por que raios (e raios vêm bem a calhar) a gente não consegue mexer a bunda e cuidar do problema?
Boa parte do filme é com profissionais entendidos do campo falando sobre como não adianta gritar "o mundo tá acabando!". Ninguém aguenta acordar todo dia com essa mensagem. Se o mundo tá acabando e eu não tenho como salvá-lo, vou só usar canudinho de papel achando que salvei uma tartaruga em Fernando de Noronha, depois encherei a cara na balada e pronto. Mais pro final do filme, porém, o publicitário Celso Loduca e Fábio Scarano, do Museu do Amanhã, falam algo muito interessante. (É algo óbvio, depois que ouvimos, como todas as verdades.)
A gente se move muito mais em direção ao desejo, ao sonho, do que fugindo do ruim. Assisti a diversas versões do filme, enquanto era montado, mas revê-lo agora nos festivas do Rio e de SP, às vésperas da eleição, trouxe outro significado. Assim como o discurso contra o aquecimento global, o que a campanha do PT oferece agora (e eu também tenho oferecido a torto e a direito) é só o horror que um presidente miliciano pode trazer ao Brasil. Beleza. Parece (e é) razão suficiente pra não votar nele.
O que, no entanto, não só a esquerda, mas todos nós que não compactuamos com o rastaquerismo da vida, estamos oferecendo como futuro? Na luta contra tanto horror, fomos nos apequenando. A briga fica na escala 6X1, no valor do Bolsa Família, na Lei Rouanet, mas já tivemos sonhos maiores.
Porra, galera, a Grécia tá do nosso lado. Sócrates, acusado de desvirtuar a juventude por questionar as pessoas se o que elas sabiam era correto ou não. Shakespeare, meu amigo, tá do nosso lado. Tem maior ataque à "família tradicional" do que Romeu e Julieta? (Os Montéquio e os Capuleto estariam nas reuniões do Lide com o Doria, contra "Kit gay" e "ideologia de gênero"). Copérnico, Galileu, Darwin, Einstein (um cristão) e Freud (super "conservador nos costumes", aliás), tão do nosso lado.
Até os heróis da ficção como, tipo, Homem-Aranha, caramba: "Com grande poder vem grande responsabilidade". (Vivemos hoje num mundo em que com grande poder vêm surubas com prostitutas ucranianas, participação em bets e viagens em jatinhos. É medíocre demais.) A esquerda, ou isso que já teve o nome de esquerda e precisa ter outro, tá encurralada no amesquinhamento do mundo. Não tem sonho pra oferecer. Não tem desejo.
A notícia boa é que a direita também não. O bolsonarismo não é o fascismo. O fascismo tinha um grande (e horroroso) projeto. O baixote do Mussolini prometia Roma reerguida. O viciado em anfetamina Hitler (moreno) oferecia a supremacia dos loiros sobre o resto da humanidade. É nefasto, mas não podemos negar, tem apelo.
O bolsonarismo não oferece nada, a não ser a possibilidade de roubalheira e a luta contra um banheiro em que um "hipotético trans", como diz o Renan Santos, vai entrar pra abusar da sua filha. (Alguém já falou que quem tem esse medo não sabe como funcionam os banheiros. Até parece que têm uma catraca de reconhecimento facial impedindo homens mal-intencionados de entrar).
Vencendo quem vença neste domingo, cabe a todos nós que achamos Shakespeare mais interessante do que Adriano da Nóbrega sairmos do corner e partir pra cima, levando o sarrafo lá pra cima. Como cantou Jimi Hendrix: "excuse-me while I kiss the sky".




