Quando uma história fisgava a atenção de Regina, ela se jogava sem reservas. Mergulhava no assunto com curiosidade e só sossegava quando descobria o último detalhe, traço que definiu seus mais de 30 anos de carreira nas redações paulistas.
Esse rigor com a notícia andava de mãos dadas com um humor leve e afetivo. A jornalista transformava a rotina corrida em um espaço vivo de conversa e risada solta.
Cria do Tucuruvi, na zona norte de São Paulo, Regina Aparecida Abrão começou a trabalhar cedo, aos 15. Anos depois, realizou o sonho de cursar jornalismo. Logo que pegou o diploma, em 1987, arrumou as malas e foi morar um tempo na Itália com as amigas do curso.
Viajaram pelo país e estabeleceram-se por um tempo em Roma. Mas a vocação falou mais alto: Regina voltou para o Brasil para construir sua história nos jornais de São Paulo.
A carreira nas redações começou em revistas segmentadas do setor econômico e fincou raízes no Diário Popular, que depois virou Diário de S. Paulo.
No jornal, construiu uma trajetória sólida: trabalhou primeiro na editoria de Interior (1988-1992), passou para a Sindical (1992-1997) e seguiu na Economia de 1997 em diante, onde chegou ao posto de subeditora. Mais do que chefiar, gostava de acolher e virou referência de afeto e generosidade para quem chegava novato à Redação.
Regina fazia questão de guardar os amigos perto de si. Tinha a mesma proximidade com as turmas do ginásio, da faculdade e do jornal. Nos fins de expediente, comandava a mesa em bares e restaurantes da região, estendendo o papo até de madrugada. Onde quer que estivesse, sua gargalhada alta e inconfundível avisava de longe que a vida ali estava sendo bem vivida.
Depois que se aposentou, voltou à zona norte, indo morar no prédio em frente ao da irmã. Ali, viveu anos tranquilos dedicados a cuidar dos pais. Embora não tenha se casado nem tenha tido filhos, transbordava maternidade no convívio familiar, como lembra a irmã, Vera Lúcia Abrão, 71, psicopedagoga e consultora de gestão de RH.
"Desde que meus filhos eram bebês, ela era apaixonada por eles. No jornal todo mundo sabia do Cauê e do Caíque, cada passinho que eles davam era um festejo. E agora estava totalmente apaixonada pelo sobrinho-neto, Diego".
Em março, topou uma jornada pelo circuito "Caminhos do Velho Chico", entre Sergipe e Alagoas. A viagem coroou a amizade de quase 50 anos com a aposentada Nadia Fossa, 67, que começou nos primeiros dias de faculdade.
"A Rê amou a viagem. Ela, que nunca queria ir a lugar nenhum, disse que estava realmente feliz de conhecer o Velho Chico e as belezas do sertão. Foram oito dias muito felizes. Ela estava ótima. Fico feliz de ter insistido com ela para me acompanhar. Acho que foi a despedida dela desta dimensão."
Regina Abrão morreu no dia 2 de outubro, aos 67 anos. Deixa a irmã, os sobrinhos, o sobrinho-neto e a irmã da vida, Nadia.



