Daniel Vorcaro nasceu em 1983. A casa de shows Madame Satã foi inaugurada em 21 de outubro de 1983. João Francisco dos Santos, conhecido como Madame Satã, era um homem negro, pobre, homossexual e artista marginal no Rio de Janeiro. Foi adotado como patrono pela comunidade LGBTQIA+.

Madame Satã morreu aos 50 anos, em 1976. Das cinco décadas de vida, mais da metade foi vivida no presídio da Ilha Grande. Daniel Vorcaro está na prisão há quase um ano. Se condenado, dificilmente passará mais de uma década na cadeia.

Terminam aqui as coincidências entre o banqueiro playboy e o artista marginal denominado Madame Satã. O comportamento de Daniel Vorcaro, pertencente à Igreja da Lagoinha, precisa ser compreendido na chave dos vínculos estruturais entre setores da sociedade que se apropriam da moralidade conservadora como marca e arma política, e não como virtude pessoal.

Sustento que o comportamento caracterizado pelo moralismo reacionário como arma política em público e vida imoral no privado, longe de ser uma anomalia ou mera hipocrisia pessoal, é o fruto apodrecido da instrumentalização da religião para defesa de interesses políticos.

Daniel Vorcaro não promovia orgias, como a do Madame Satã, e patrocinava "Dark Horse" e a família Bolsonaro porque era uma pessoa incoerente ou meramente calculista. Afinal, o filme era para vender Jair Bolsonaro como líder da agenda moral conservadora. "Dark Horse" e as orgias de Vorcaro são dois lados da mesma moeda. De dia, os moralistas apontam os pecados alheios; à noite, financiam suas orgias com o dinheiro desviado.

Wendy Brown, cientista política, expõe no livro "Nas Ruínas do Neoliberalismo" (Politeia) a lógica que guia a aliança entre lideranças evangélicas e políticos/empresários envolvidos em escândalos sexuais. A análise trata do apoio evangélico a Donald Trump, mas serve para entender a aliança por aqui entre setores evangélicos, como a Igreja Lagoinha e assemelhados, e o bolsonarismo.

Brown explica que a lealdade a uma identidade coletiva —pautada em nação, família e valores tradicionais— se sobrepõe à moral individual. O líder político conservador cria laços afetivos tão fortes com o grupo religioso que os escândalos pessoais são perdoados para proteger os interesses do grupo.

Na prática, há uma dissociação entre os atos pessoais da liderança conservadora e sua utilidade política para a agenda moral. Se não for assim, como entender a frase do deputado Lucas Bove, dita no podcast Iron Talks, para justificar o apoio ao candidato Flávio Bolsonaro diante das críticas pelos milhões recebidos do esquema do Master: "É corrupto, mas é cristão".

Vorcaro deu ordens para que nada da festa no Madame Satã vazasse porque sabia que a Igreja Lagoinha foi edificada a partir do discurso que atribui a homossexualidade à ação de Satanás. Educado no fundamentalismo evangélico, ele compreendia que pecados sexuais costumam ser perdoados aos conservadores; seu real temor era ser pego frequentando um espaço de homenagem a um ícone da comunidade LGBTQIA+.

Assim, a ocultação do fato reflete como não se trata de uma ética de convicção guiando virtudes na vida privada, mas estritamente de cálculo político orientando a imagem pública.

Em julho de 2023, o pastor André Valadão, líder da Igreja Lagoinha, causou polêmica ao sugerir que Deus já havia "resetado" o mundo com o Dilúvio e que a imoralidade sexual contemporânea merecia destino semelhante.

Daniel Vorcaro, membro da Lagoinha e amigo pessoal de Valadão, no Halloween de 2023, fazia sua orgia diluviana. O que ninguém sabia era que, em 2026, Madame Satã, de modo apocalíptico, ressurgiria cavalgando o "Dark Horse".