A cerca de um mês de completar 21 anos, a Passagem Literária da Consolação está em um momento de incertezas.
O impasse envolve diferentes frentes: por um lado, a associação de livreiros que ocupa o espaço tenta reverter a intimação da Prefeitura de São Paulo para deixá-lo; por outro, a gestão Ricardo Nunes (MDB) avalia a rescisão com um grupo de bares que não executou intervenções acordadas em 2023.
A travessia subterrânea da rua da Consolação está na esquina com a avenida Paulista, na região central. Em redes sociais, é presença frequente em postagens de influenciadores sobre cantinhos secretos (e "instagramáveis") da cidade.
A Associação Via Libris de Livreiros entrou com pedido de permissão de uso em julho para continuar no espaço, onde um sebo coletivo com vendedores do entorno se instalou após parceria com a Subprefeitura da Sé, em novembro de 2005. Em abril, a fiscalização municipal apontou falta de autorização vigente.
Em paralelo, a subprefeitura analisa a viabilidade do rompimento do acordo de cooperação com a Fábrica de Bares, firmado em dezembro de 2023.
Vistoria em julho identificou que nenhuma intervenção do projeto chamado "Riviera Urbano" foi executada na passagem subterrânea e na praça José Molina, vizinhas ao bar Riviera, um dos principais do grupo empresarial.
Os fiscais também constataram que a praça está "em grande estado de abandono", precisando de manutenção, limpeza, retirada de resíduos, plantio de grama e pintura das muretas, de acordo com a avaliação.
Tanto o pedido de permissão de uso dos livreiros quanto o rompimento do acordo estão em análise pela gestão Nunes.
Manifestação da assessoria jurídica da subprefeitura em julho apontou que, caso a subprefeitura opte pela retomada da passagem, "muito provavelmente" ela ficaria abandonada, visto que não consta em destinação institucional ou planejamento operacional e orçamentário.
A Fábrica de Bares é do mesmo grupo de empresários ligado à proposta de uma "Times Square" na esquina das avenidas Ipiranga e São João, no centro.
O grupo empresarial considera que o acordo com o município foi encerrado 30 dias após a assinatura, por não apresentar cronograma e orçamento. Em nota, justificou a desistência por não ter tido tempo hábil para o detalhamento do projeto no prazo, diante da identificação de infiltrações na passagem —o que comprometeria a realização de uma reforma.
A gestão Nunes tem entendimento distinto. Também em nota, respondeu que o termo está vigente até dezembro de 2026. Considera, entretanto, que não estabelecia prazos para a execução de intervenções. Portanto, não haveria indicação de eventual penalização.
Em trechos do acordo com o grupo, diz-se que "a cooperante compromete-se a executar, pelo prazo de 36 (trinta e seis) meses, o projeto que compõe o presente termo". Na sequência, igualmente se compromete a "apresentar melhorias no local, tornando o ambiente agradável e apresentável à comunidade".
O documento é assinado pelo então subprefeito da Sé, coronel Alvaro Camilo, e um dos sócios da Fábrica de Bares, Caire Aoas. Nele, há apontamento de que, em caso de descumprimento, "a cooperante será notificada para, no prazo de 05 (cinco) dias úteis, comprovar a regularização dos serviços, sob pena de rescisão".
Enquanto isso, livreiros improvisam com baldes e placas para sinalizar as goteiras do espaço. A prefeitura não respondeu à Folha se há previsão de nova obra contra infiltrações.
Para a passarela subterrânea, o acordo com os empresários previa a manutenção, a reforma e a iluminação da travessia subterrânea e a realização de eventos culturais, com a seguinte periodicidade:
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sessão de cinema em parceria com o Cine Belas Artes (mensal);
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desfile de moda (bimestral);
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música ao vivo (quinzenal);
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aulas de história (mensal);
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contação de histórias para crianças (semanal).
Além disso, incluía a manutenção, a zeladoria e a "revitalização paisagística" da praça, com nova iluminação, colocação de lixeiras recicláveis, serviços de jardinagem, instalação de wi-fi e colocação de "árvore líquida" (aquário com algas).
O valor estimado era de R$ 898,2 mil, dos quais R$ 549 mil para implantação e R$ 349,2 mil para manutenção por três anos.
Originalmente, a proposta incluía a criação de um deque com mesas acima de um dos acessos da passagem subterrânea, localizado em frente ao bar Riviera. Essa intervenção não entrou no acordo final.
Em apresentação para comissão municipal em 2023, a Fábrica de Bares defendeu que a passagem literária havia perdido tração e caído no esquecimento. A proposta envolvia manter os sebos em conjunto com mesas e cadeiras.
O grupo apontava que seria uma forma de recuperação e ressignificação de área degradada. Sobre a praça, havia respondido que também ajudaria na sensação de segurança dos frequentadores do Riviera, cuja fila de espera na rua chega a ultrapassar duas horas.
'Descanso para o olhar', diz vendedora de livros
A Associação Via Libris ("caminho do livro" em latim) foi criada por vendedores ambulantes de livros convidados a participar de experiência-piloto em novembro de 2005. Era uma parceria com a subprefeitura, após reforma do espaço, que tinha histórico de depredações, sujeira e infiltrações.
O local funciona como um sebo coletivo, com cinco livreiros. Há também vitrines com exposições artísticas, além de colagens e grafites feitos nos acessos e nas escadarias.
Presidente da associação, Odete Machado considera a passagem literária um "respiro" na cidade, tanto para as pessoas que apenas atravessam de um lado ao outro da Consolação quanto para aquelas que param para olhar alguma obra ou conversar.
"Já escutei várias pessoas que falaram que descansou o olhar quando passou por ali", diz.
O público é variado, desde turistas até trabalhadores do entorno. Isso inclui também pessoas que estão começando a ter mais contato com a literatura. "Tem gente que tem vergonha ainda de entrar em livraria."
Pelo uso, os livreiros costumam manter o espaço limpo e desimpedido. Não são responsáveis, contudo, pela manutenção estrutural.
Jurídico da subprefeitura disse que saída de livreiros pode sucatear local
Em abril de 2026, um fiscal municipal identificou que não havia mais documentação regular para a continuidade da associação. Isso motivou o auto de infração.
O pedido de permissão de uso está em análise. Manifestação da assessoria jurídica da subprefeitura em julho apontou, porém, que a organização desenvolve papel cultural e de conservação do espaço.
Desse modo, a manifestação jurídica considerou que a saída da associação estaria "oportunizando a depredação dos mobiliários existentes no local, o sucateamento das estruturas e, até, eventualmente, a sua invasão por pessoas em situação de vulnerabilidade social, o que demonstra que essa estratégia não estaria alinhada ao interesse público".
A associação mantém a passagem aberta de segunda-feira a sábado, das 10h às 19h. A travessia foi construída durante o alargamento da Consolação, nos anos 1970.

