O incêndio registrado na quarta-feira (7) em um prédio da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) causou uma perda inestimável para a ciência e um prejuízo de cerca de R$ 100 milhões, segundo a reitoria. A polícia investiga as causas do incidente.
O caso não é isolado. Incêndios, estruturas deterioradas e desastres naturais, como temporais e enchentes, atingiram universidades, centros educacionais, museus e institutos com décadas de pesquisas científicas em diversas áreas, além de um montante em prejuízos financeiros relacionados a equipamentos e questões patrimoniais.
Veja abaixo alguns dos principais casos que atingiram a ciência e a cultura no Brasil.
Incêndios na UFPE (2026)
A Polícia Federal instaurou inquérito para investigar o incêndio de quarta que atingiu o prédio da UFPE, onde funcionavam vários laboratórios de fármacos, informática e genética. A corporação ainda não sabe se o fogo foi acidental ou criminoso. Não houve feridos.
"Nós perdemos o andar superior completamente. Estimamos em termos de equipamentos, insumos e material de maneira geral, uma aproximação de R$ 100 milhões", afirma Alfredo Macedo Gomes, reitor da universidade.
"Outra grande perda do laboratório foram as pesquisas, em torno de 80 dissertações e teses de doutorado. Perda irreparável porque dados de 20 anos de pesquisa eram também guardados nos espaços", acrescentou.
Este é o terceiro incêndio na universidade em pouco mais de uma semana. No último domingo (4), outro incidente foi registrado no laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal, no Centro de Biociências, atingindo freezer e ar-condicionado. Também não houve feridos neste caso.
No dia 30 de setembro, um incêndio atingiu um laboratório do Departamento de Física. A suspeita da universidade é que o fogo tenha começado em uma câmara de alta temperatura usada no aquecimento de substâncias. Esses dois últimos casos são considerados de pequeno porte.
Institutos e universidades federais, no RS (2026 e 2024)
Os temporais de setembro deste ano causaram danos milionários à rede federal de educação no sul do Rio Grande do Sul. Somando estragos de diferentes instituições, a conta inicial é de pelo menos R$ 4,8 milhões.
Dos 14 campi do IFSul (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense), nove sofreram danos. A cidade de Pelotas, uma das mais afetadas pelo evento climático, concentra os maiores prejuízos –a direção calcula serem necessários R$ 2,1 milhões para a recuperação emergencial dos prédios afetados.
Já no CaVG (Campus Visconde da Graça), que faz parte do IFSul e também fica em Pelotas, os danos estão na casa de R$ 720 mil. A estimativa ainda é preliminar, e o prejuízo pode ser maior. A unidade, reconhecida pela formação agrícola, já havia sofrido com os eventos climáticos do início de agosto, quando um ciclone atingiu o estado.
Em Rio Grande, também na metade sul gaúcha, o campus do IFRS (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul) estima, em levantamento ainda preliminar, danos na casa de R$ 1 milhão.
O cenário é similar ao das unidades de Pelotas: nove prédios foram afetados, com estragos em forros, pisos, pinturas, portas e instalações elétricas. Em três deles houve desabamento parcial do telhado nas salas de aula, afetando principalmente laboratórios de informática.
Já a Furg (Universidade Federal do Rio Grande), que possui campi em diversas cidades no sul do estado, afirma que os danos ocorreram de forma dispersa, o que demanda mais tempo para identificar prejuízos.
Sabe-se até agora que o campus Rio Grande foi o mais atingido, com avarias principalmente em coberturas, telhados e esquadrias. Estimativas iniciais indicam reparos que podem ultrapassar R$ 1 milhão.
Em 2024, durante a enchente história que afetou principalmente o Rio Grande do Sul, as universidades e institutos federais pediram, inicialmente, mais de R$ 124 milhões para reconstruir as estruturas afetadas. O desastre, repercutido dentro e fora do país, atrasou os calendários educacionais e afetaram a vida de milhões de moradores por meses.
Instituto Doutor Caetano Munhoz da Rocha, no PR (2026)
No dia 4 de abril, um incêndio atingiu o prédio histórico onde funciona o Instituto Estadual de Educação Doutor Caetano Munhoz da Rocha em Paranaguá, cidade litorânea do Paraná. As chamas se espalharam rapidamente por estruturas de madeira do edifício, provocando o colapso do telhado.
A edificação de 1927 é tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná desde 1991. A unidade conta com 1.635 alunos matriculados em 53 turmas, sendo sua grande maioria de estudantes do ensino médio. Não houve vítimas.
Segundo a Secretaria de Cultura de Paranaguá, o edifício possuía 24 salas de aula, entre outras dependências, e conservava em seu interior um altar em estilo barroco. Era também a mais tradicional instituição de ensino público do estado, considerado um monumento da cultural.
Museu Nacional da UFRJ (2018)
O incêndio no Museu Nacional, vinculado à UFRJ, no dia 2 de setembro de 2018, é considerado o maior desastre que já atingiu o patrimônio científico e histórico do Brasil. Cerca de 90% do acervo em exposição se perdeu, incluindo o Maxakalisaurus topai, quadrúpede herbívoro que era o maior dinossauro já montado no país.
Do vasto acervo que a instituição tinha, as áreas correspondentes a arqueologia, paleontologia, antropologia e invertebrados (com cerca de 5 milhões de insetos) foram quase totalmente perdidas. O mesmo vale para laboratórios e salas de aula.
Com mais de 20 milhões de itens, o museu era especializado nos estudos de paleontologia, antropologia, geologia, zoologia, arqueologia e etnologia biológica. A instituição tinha uma das mais completas coleções de fósseis de dinossauros do mundo, múmias andinas e egípcias e artefatos importantes da arqueologia brasileira.
Outra perda irreparável foi a Biblioteca Francisco Keller, com um acervo de 537 mil livros. O único objeto que resistiu às altas temperaturas foi o Meteorito Bendegó, que ficou intacto em meio aos escombros do prédio.
Memorial da América Latina, em São Paulo (2013)
Um incêndio atingiu, no dia 29 de novembro de 2013, o principal auditório do Memorial da América Latina, espaço cultural público situado na Barra Funda, zona oeste de São Paulo. O auditório Simon Bolívar tinha, na época, a capacidade de 1.600 lugares —atualmente o número é de 1.788, segundo a fundação responsável pelo espaço.
O memorial pertence ao governo de São Paulo e foi inaugurado em 1989. O espaço tem 84,5 mil m² e foi projetado por Oscar Niemeyer, morto em dezembro de 2012. O espaço é dedicado a manifestações artísticas e científicas ligadas à identidade latino-americana. O conceito foi desenvolvido pelo antropólogo Darcy Ribeiro.
Instituto Butantan, em São Paulo (2010)
No dia 15 de maio de 2010, em pouco mais de duas horas, um incêndio destruiu milhares de espécimes da Coleção Científica de Serpentes, Aranhas e Escorpiões (Herpetológica e Aracnológica) do Instituto Butantan, na zona oeste de São Paulo.
O galpão destruído pelo fogo continha mais de cem anos de pesquisa em diversas áreas. A coleção era considerada uma verdadeira memória da biodiversidade brasileira. Os animais estavam mortos e armazenados em potes de vidro, preservados com formol ou álcool. O material inflamável contribuiu para que o fogo se alastrasse rapidamente e destruísse completamente o local.
O acervo de aproximadamente 85 mil exemplares de cobras foi parcialmente destruído. Era a maior coleção de serpentes do mundo. Cerca de 450 mil espécimes de aranhas e escorpiões também foram atingidos pelo fogo. Boa parte do patrimônio, coletado desde o início do século passado, não havia sido descrito pelos biólogos. Estavam lá também espécies raras, extintas ou ameaçadas.



