A Folha não falha. Quando menos se espera, volta com a mesma ladainha. Que a manutenção das universidades seja precária e a recomposição orçamentária insuficiente, isso é óbvio e compromete a educação superior pública federal. Tomar, porém, os três incêndios na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) como mote para a defesa de um modelo obscuro de financiamento, além de conter uma falácia de "non sequitur", traz consigo mau gosto e falta de pudor, como quando o noticiário das páginas policiais migra para o debate acerca dos direitos humanos.
Quem compreende o papel estratégico das universidades e seu laço interno com um projeto mais generoso de nação não silencia e deve apontar os graves problemas orçamentários ora enfrentados. Devem mostrar isso inclusive para o governo Lula, lembrando que só o investimento em nossos equipamentos e em nossa gente pode impedir que afundemos em um obscurantismo servil. As universidades, os estudantes e os artistas estão, aliás, dando muito bem o seu recado, neste momento em que as forças progressistas precisam de energia para uma virada.
Por outro lado, prosélitos de projetos de privatização dão seus pulos de alegria diante de um quadro precário, agravado nos governos Temer e Bolsonaro e ainda não suficientemente corrigido neste governo Lula. Tratam a universidade como algo a ser instrumentalizado logo veem esses problemas como oportunidade para reiterar seu mantra ideológico. Nesse sentido, a Folha não falha e não há de faltar às elites, que podem contar com sua verve.
A Folha farfalha, mas é preguiçosa em seu veneno, quando passa a plagiar a si mesma. Temos direito a material novo! Sua preguiça é quase um insulto. Logo, que trabalhem mais e melhor, pois não deixa de ser triste reler mais do mesmo e, ademais, com menos brilho. Compare-se o editorial da Folha de S.Paulo de 19 de outubro de 2026, "Custeio das universidades exige reformas", com o de 23 de maio de 2025, "Não haverá dinheiro que baste para universidade públicas". Falta ao texto de agora a verve voltairiana que sobrava no editorial anterior; preserva-se apenas a fúria.
A Folha é falha, porque fiel à sua filiação. Simplesmente, não escuta quem lida com a gestão universitária, recusa-se a dar espaço às análises produzidas pela própria academia, cuja competência, por uma espécie de ignorância seletiva, só reconhece em assuntos específicos. Vê de fora o problema, sem estima pelo projeto decerto caro de uma rede nacional de ensino, pesquisa e extensão.
A Folha favorece o antigo ideário de que a pesquisa deva se restringir a uns poucos centros —ideário hostil ao projeto de centros de excelência espalhados pelo Brasil. Sua avaliação é errada e enviesada por preguiça? Não, por ideologia. Tudo se torna ocasião para levantar o tema do pagamento de mensalidades pelos estudantes, a redução da estabilidade dos servidores e, por óbvio, as parcerias público-privadas —no que, aliás, encontram aliados insidiosos inclusive no atual governo.
A Folha só falha, então. Seus editoriais terminam por alimentar bolhas ideológicas —ou seja, redomas imiscíveis ao contraditório, infensas à diferença. Em um mundo ideal, poderiam ilustrar pensamentos, honrando inclusive a chamada O que a Folha pensa. Ao contrário, no mundo real, estão longe de ser espaço de pensamento, reduzindo-se a doutrinação. Podiam ser mais refinados. Nós os leríamos com mais ou menos revolta, mas com algum prazer intelectual. Infelizmente, a Folha prefere há muito preparar dilúvios, não quer soluções.


