A polícia de São Paulo investiga a possibilidade de que Gustavo Munis de Santana, 20, morto após quatro policiais efetuarem 45 disparos contra ele na madrugada de sábado (10), tenha provocado deliberadamente a reação dos agentes para tirar a própria vida.

A hipótese, conhecida como "suicide by cop" (suicídio provocado pela polícia), é examinada após a descoberta de um histórico de acionamentos policiais envolvendo o jovem, segundo integrantes doa cúpula do governo paulista que acompanham o caso.

Desde 2022, Gustavo teria feito pelo menos 16 ligações à polícia para denunciar a presença de pessoas armadas que estariam prestes a cometer crimes. Quando as equipes chegavam aos endereços indicados, porém, descobriam que o suspeito descrito nas chamadas era o próprio rapaz.

A informação foi relatada à Folha por integrantes da cúpula do governo. Procurada, a família da vítima disse que não vai comentar o assunto, por ora. À polícia os familiares disseram que Gustavo morava com a mãe e as irmãs e estava em tratamento com antidepressivos desde o ano passado.

A morte é investigada pela Polícia Civil e pela Corregedoria da PM. Integrantes da Polícia Civil afirmam que, ainda que um caso de suicídio provocado fique comprovado, o execesso de disparos precisa ser esclarecido —já que foge de uma proporcionalidade esperada.

Os investigadores também procuram esclarecer se o próprio Gustavo teria feito a ligação que levou policiais militares à alameda dos Guaramomis, em Moema, na zona sul paulistana, onde acabou morto.

Segundo o boletim de ocorrência, os agentes foram acionados depois que uma pessoa informou que havia um indivíduo transtornado ameaçando atirar contra si.

Ao chegarem ao local, os policiais encontraram Gustavo, vestido com uma camiseta vermelha e caça jeans, nas proximidades de uma passarela. Ele correu, colocou a mão na cintura e, em determinado momento, apontou um objeto escuro na direção dos agentes, segundo a versão oficial.

Quatro policiais dispararam contra o rapaz. O objeto que ele segurava, descobriram depois, era um aparelho celular.

A perícia identificou ao menos 27 ferimentos em seu corpo. Gustavo não tinha antecedentes criminais. No antebraço direito, ele tinha uma tatuagem com a inscrição "livrai-me de todo mal —amém".

Pessoas que tiveram acesso às câmeras corporais dos PMs afirmam que Gustavo corria com a mão na cintura e ameaçava atirar antes de ser atingido.

Para esse policial, o comportamento poderia ser compatível com uma tentativa de provocar uma intervenção policial fatal. A avaliação, porém, ainda não foi confirmada pelas investigações.

Fenômeno é estudado pela PM há anos

O fenômeno conhecido como "suicide by cop" é investigado pela PM paulista desde pelo menos 2018.

Em reportagem publicada pela Folha em setembro de 2019, o então major Valmor Saraiva Racorti, comandante do Batalhão de Operações Especiais da PM, revelou que um levantamento realizado pelo Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) havia identificado três ocorrências com essas características entre os 22 atendimentos realizados pela unidade em 2018.

Os casos representavam 14% das ocorrências analisadas.

Na ocasião, Racorti explicou que esse tipo de episódio envolve pessoas que, por diferentes razões, procuram provocar uma situação de confronto com policiais para serem mortas.

O oficial destacou que algumas delas apresentam pensamentos suicidas e não necessariamente têm antecedentes criminais.

Entre os comportamentos estudados estavam ameaças aos agentes, gestos interpretados como agressivos e exposição deliberada ao risco de disparos.

Na época, a PM anunciou que pretendia transformar os resultados das pesquisas em treinamentos e protocolos de atuação, inclusive para os policiais responsáveis pelo primeiro atendimento das ocorrências.

O objetivo declarado era preparar as equipes para identificar situações dessa natureza e buscar soluções que preservassem a vida das pessoas envolvidas.

Sete anos depois, o caso de Gustavo levanta questões sobre a aplicação desse conhecimento no policiamento cotidiano. A investigação deverá esclarecer a dinâmica dos disparos e as circunstâncias que levaram quatro agentes a atirar contra o jovem.

Também será necessário determinar se o comportamento de Gustavo decorreu de uma intenção de provocar a própria morte ou de outras circunstâncias que ainda não foram esclarecidas.

A hipótese de suicídio provocado pela polícia, mesmo que venha a ser confirmada, não afasta a necessidade de examinar a legalidade e a proporcionalidade da intervenção policial.