Nossa Senhora Aparecida, santa considerada padroeira do Brasil e cuja data se comemora no dia 12 de outubro, é representada sempre conforme a imagem originalmente encontrada por pescadores em 1717, no rio Paraíba do Sul, região onde hoje está a cidade de Aparecida (no interior de São Paulo).

Tem o semblante escuro e contornos semelhantes ao de outras "nossas senhoras" pelo mundo.

Para os católicos, é exatamente a mesma santa: Maria, jovem nascida por volta do ano 20 antes da Era Comum em Nazaré, então região dominada pelo Império Romano ao sul do território onde atualmente fica Israel.

"É uma só, Maria a mãe de Jesus", define o frade franciscano Maurício Solfa, filósofo, teólogo e autor do livro "60 Dias Para Mudar". "O que muda são os títulos, as circunstâncias, os lugares e os aspectos do mistério que cada devoção destaca. É a mesma Maria contemplada sob diferentes aspectos."

Conforme as escrituras bíblicas e a tradição, ela teria dado à luz a Jesus, aquele que acabaria sendo adorado como filho de Deus e se tornaria o mito fundador da religião cristã e todos os seus desdobramentos.

Ao longo dos séculos, Maria acabou sendo chamada de diversas formas por aqueles que a veneram. Professora na Universidade Lusófona, em Portugal, e autora do livro "Cristianismo no Feminino", a antropóloga e historiadora Lidice Meyer detalha que o título mariano pode ser tópico, "quando se refere a uma determinada povoação ou local, caracterizando a devoção como protetora de um grupo étnico ou de um território ou quanto à função da invocação"; relacionar-se "a uma característica, qualidade ou função atribuída" a ela.

Meyer lembra que essas nomenclaturas se tornaram tão contrastantes e nítidas no ambiente devocional popular que "acabaram por adquirir personalidade própria como que separada da Virgem Maria". "É comum encontrarmos diversas imagens de diferentes devoções mariana como Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora de Fátima ocupando lugar lado a lado nos altares e oratórios particulares ou mesmo em igrejas, recebendo devoções próprias como se representassem santas diferenciadas", comenta ela.

Origens

Alguns títulos resultam de construções teológicas —ou mariológicas— e acabaram ganhando contornos dogmáticos no catecismo da Igreja Católica.

Chamá-la de Mãe de Deus, por exemplo, remete ao Concílio de Éfeso, ocorrido no ano de 431. Ali, os religiosos daquela época estavam preocupados em definir a natureza de Jesus. Quando concluíram que ele, além de ser entendido como Deus, também tinha assumido forma humana, automaticamente acabaram salientando a maternidade de Maria. Também são dogmáticos os nomes de Virgem Maria ou mesmo Nossa Senhora da Imaculada Conceição, por exemplo —porque partem de "verdades" entendidas pelo catolicismo como "de fé" e "inquestionáveis".

Há ainda os epítetos atribuídos a devoções específicas, a tradições populares de recorrerem a Nossa Senhora para intercessões em casos objetivos. Assim, por exemplo, existe a Nossa Senhora do Bom Parto, padroeira das gestantes; Nossa Senhora da Boa Morte, que ajudaria na "passagem para a vida eterna"; ou Nossa Senhora da Ajuda, a auxiliadora das causas urgentes.

Por fim, boa parte das denominações de Maria segue o padrão de aludir a topônimos ligados a supostos milagres, relatos de aparições ou mobilizações específicas de fiéis. Assim, Nossa Senhora de Fátima, em Portugal, é porque nessa localidade ela teria aparecido, em 1917, a três crianças; Nossa Senhora de Lourdes, pois foi em Lourdes que ela teria sido vista, em 1858, por uma jovem camponesa; ou Nossa Senhora de Copacabana, porque uma imagem teria sido esculpida no vilarejo com esse nome, às margens do lago Titicaca (na Bolívia), por um indígena.

Nossa Senhora Aparecida —o nome completo, aliás, é Nossa Senhora da Conceição Aparecida— é quase uma exceção a esses formatos. Porque se, por um lado, alude a um topônimo contemporâneo, já que Aparecida é nome da cidade, foi a santa que batizou o lugar e não o contrário. Ficou Aparecida porque "apareceu" no rio.

Padroeira

Curiosamente, tudo indica que a santa não tenha sido encontrada no dia 12 de outubro, data que acabaria consagrada à celebração dela. Relatos antigos mencionam que os pescadores teriam achado a imagem na segunda quinzena de outubro e, como indicam pesquisas contemporâneas, o mais provável é que o achado tenha ocorrido no dia 17.

Mas a data de 12 de outubro era importante historicamente quando o Brasil se tornou país independente de Portugal. Pedro 1º (1798-1834), o primeiro imperador brasileiro, nasceu em um 12 de outubro —e foi coroado imperador em um 12 de outubro.

Quando empreendeu a viagem da corte a São Paulo, a mesma na qual estava quando declarou a independência em 7 de setembro de 1822, uma de suas paradas teria sido a então pequenina cidade de Aparecida, conforme conta o biógrafo Paulo Rezzutti no livro "D. Pedro: A História Não Contada".

Conta-se que o monarca teria prometido ali que faria de Nossa Senhora padroeira do Brasil caso um dia se tornasse imperador. Mas ele nunca se movimentou nesse sentido. O primeiro padroeiro do Brasil foi são Pedro de Alcântara, por solicitação pessoal do imperador ao papa —privilegiando o seu santo onomástico.

Neta de Pedro 1º e católica fanática, a princesa Isabel (1846-1921) teria sido grande devota de Nossa Senhora Aparecida. Em uma das visitas que fez à então igrejinha onde ficava a imagem, ela doou uma coroa e um manto azul para a santa.

Já no Brasil republicano, no início do século 20, um sacerdote enviado pelo Vaticano para celebrar no Brasil teria usado esse adereço para coroar a imagem de Aparecida, chamando-a de "rainha do Brasil". Mas padroeira mesmo ela só seria oficializada em julho de 1930, por decreto do papa Pio 11 (1857-1939).