A maior cruz do mundo será construída no Brasil, será financiada com dinheiro público e custará mais de R$ 30 milhões. Na primeira semana de setembro, a prefeitura de Cruz Alta, cidade do centro-norte gaúcho, deu início às obras. O empreendimento é resultado de emendas parlamentares do deputado Bibo Nunes (PL).
Há pouco mais de seis meses, o grupo de pesquisa Passagens (UFRJ) deu início a uma extensa investigação sobre a construção de monumentos religiosos no Brasil com financiamento público. Por mais que os dados preliminares já indicassem o fenômeno da multiplicação de construções religiosas, a realidade não para de surpreender. Desta vez, depois dos santos gigantes católicos e do parque temático Terra Prometida, no Rio de Janeiro, já tratados nesta coluna, uma cidade de pouco menos de 60 mil habitantes iniciou a construção de uma cruz de 102 metros de altura.
Além de seu tamanho colossal, a maior cruz do mundo terá em seus arredores um pomar com frutas bíblicas, um jardim, um teleférico e um parque temático religioso.
A destinação de emendas parlamentares para a construção de monumentos religiosos tem transformado a paisagem das cidades brasileiras, com um número crescente de monumentos cristãos no espaço público.
O fenômeno não é apenas brasileiro. A antropóloga estadunidense Sally Promey mostrou, em seu último livro, "Religion in Plain View" (Religião à Vista), a progressiva saturação de monumentos religiosos nos Estados Unidos. No Brasil, contudo, essa ocupação da paisagem tem sido impulsionada diretamente por emendas parlamentares.
No caso brasileiro, dois aspectos são comuns a essas construções. Primeiro, é usual que os monumentos carreguem os traços do gigantismo latino-americano e se projetem como os maiores do mundo em suas categorias. Daí o fato de ostentarmos títulos curiosos, como os de país com a maior Nossa Senhora de Fátima do mundo, o maior São Miguel Arcanjo e, agora, a maior cruz do planeta. Aliás, foi a cabeça de um desses santos gigantes que inspirou o romance "A Cabeça do Santo", de minha colega Socorro Acioli, também colunista desta Folha.
Além disso, é comum a esses monumentos que a justificativa para sua construção seja o suposto boom no turismo local que promoveriam. Nesse caso, as formulações também são hiperbólicas. Bibo Nunes projeta que a maior cruz do mundo atrairá turistas de todo o planeta para a cidade de Cruz Alta.
Os arroubos dos planos turísticos para Cruz Alta fazem lembrar outra obra ficcional, desta vez um filme de 2007 intitulado "O Banheiro do Papa". Nele, uma pequena cidade uruguaia, na fronteira com o Rio Grande do Sul, é informada de que o papa faria uma visita ao lugar. Logo, os habitantes da pequena cidade de Melo investem todas as suas economias na construção de barracas comerciais para atender à esperada horda de peregrinos que a visitaria. A prefeitura, por sua vez, investe na preparação da infraestrutura para a invasão de católicos que transformariam a economia local.
O personagem principal do filme tem a ideia de investir tudo o que tem na construção de um banheiro, que seria usado pelos peregrinos e lhe daria uma verdadeira fortuna, de tão procurado. Ao fim, o papa apenas atravessa rapidamente a cidade e meia dúzia de turistas aparece. Há mais vendedores de comida do que peregrinos querendo comer. O banheiro construído para o evento só é usado pelo próprio personagem.
A cidade de "O Banheiro do Papa" está a menos de 500 quilômetros de Cruz Alta. A história do filme é uma ficção; a da maior cruz do mundo no município gaúcho, não.

