Dez dias após ser eleito o segundo deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro, com 197.178 votos, Márcio Canella (União Brasil) foi preso nesta quinta-feira (15) pela PF (Polícia Federal), na oitava fase da Operação Unha e Carne. Também foram presos o delegado Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil, e os policiais civis Pablo Jukia Félix Ferreira, o Pablo Russo, José Carlos Alves de Souza Júnior e os irmãos Christiano e Giovanni Gaspar Fernandes.

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes determinou as prisões preventivas. A PF investiga uma organização suspeita de usar uma rede de postos de combustíveis na região metropolitana para lavar dinheiro. O esquema teria movimentado R$ 7,6 bilhões em seis anos.

Moraes também mandou sequestrar bens e suspender as atividades de 112 empresas, 96 delas postos. A investigação está ligada à ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) 635, a ADPF das Favelas, em que o STF mandou a PF apurar relações de agentes públicos com o crime organizado.

Canella foi preso em casa, na Barra da Tijuca, na zona sudoeste. Começou na política em 2009, como secretário em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Foi vereador e deputado estadual por três mandatos. Em 2022, teve a maior votação para a Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro). Eleito prefeito de Belford Roxo em 2024, no primeiro turno, renunciou em abril para disputar o Senado. A chapa tinha o apoio de Flávio Bolsonaro (PL), e a mãe do senador, Rogéria Bolsonaro, seria a primeira suplente.

Em 7 de julho, na sexta fase da operação, Canella foi alvo de busca e acabou preso em flagrante com um fuzil no carro. Seus advogados afirmaram que a arma era legalizada e registrada em nome do PM que fazia sua segurança. Moraes o soltou três dias depois e, mais tarde, revogou as medidas cautelares. Canella desistiu do Senado e voltou a disputar uma vaga na Alerj. Quase 68% de seus votos vieram de Belford Roxo.

Em 2018, o deputado fez campanha ao lado do ex-PM Juracy Alves Prudêncio, o Jura, condenado por homicídio e associação criminosa e apontado como chefe de milícia na Baixada. No ano seguinte, nomeou a mulher do policial assessora em seu gabinete. Jura também foi alvo da sexta fase.

Procurada, a defesa do parlamentar afirmou que ainda não teve acesso à decisão.

Canella foi padrinho político de Amim. Em 2018, propôs para o delegado a Medalha Tiradentes, principal honraria da Alerj, e, em 2023, apoiou sua nomeação para comandar a Polícia Civil no governo Cláudio Castro (PL). Para isso, a Assembleia mudou a Lei Orgânica da corporação, que exigia 15 anos no cargo de delegado. Amim tinha dez anos.

Natural de Niterói, o agente entrou na polícia como inspetor e ficou conhecido como comentarista de segurança de programas de TV. Nas redes sociais, era chamado de "delegado influencer". Antes de virar secretário, presidiu o Detran (Departamento Estadual de Trânsito). Ele foi demitido por Castro em setembro de 2024 e passou a chefiar a segurança da Alerj. Em julho, quando foi alvo de busca, sua defesa afirmou que ele sempre atuou dentro da legalidade durante sua gestão. Ele foi preso nesta quinta em casa, em Niterói.

A reportagem busca a defesa dele.

Segundo a PF, o inspetor Pablo Russo é o dono oculto de uma rede de postos de combustíveis, com mais de 80 empresas registradas em nome de parentes. Na polícia desde 2003, ele trabalhou com Amim em delegacias e no Detran e é descrito por investigadores como homem de confiança de Canella.

Os irmãos Gaspar Fernandes foram presos em 2011 na Operação Guilhotina da Polícia Federal, que investigava policiais do Rio suspeitos de corrupção e de ligação com tráfico, milícia e máfia dos caça-níqueis.

Condenados em primeira instância, foram absolvidos na segunda e reintegrados à polícia. São filhos de Ricardo Afonso Fernandes, o Afonsinho, PM aposentado que já foi preso por suspeita de liderar uma milícia. Ele também foi absolvido.

Christiano era sócio de Amim numa consultoria de segurança. Os dois aparecem juntos em moção da Alerj aos policiais da operação que matou Ecko, chefe da maior milícia do estado, em 2021. Atualmente ele ocupa o cargo de secretário de Ordem Urbana de Belford Roxo.

A Folha tenta localizar a defesa de Pablo Russo e dos irmãos Gaspar Fernandes.

Procurada na manhã desta quinta, a Prefeitura de Belford Roxo não se manifestou até a publicação deste texto.